quarta-feira, 12 de agosto de 2020

A sete chaves



Aguardo pacientemente
Não sei o quê.
E guardo, sem saber,
Tudo o que poderia aguardar. 

Fosco

Hoje o sorriso parece difícil.
Os olhos insistem em merejar,
A garganta teima em dar um nó.

Hoje o amanhã é sem brilho,
O hoje é opaco, fosco
E o ontem insiste em ocupar espaço.

Hoje os pensamentos voam
Como pássaros sem norte
E, sem querer, fazem pouso numa lápide.

Na lápide a inscrição é ilegível,
Datas e nomes borrados, apenas um epitávio
Que diz: Voa, voa, segue avante.

domingo, 26 de julho de 2020

Multidões

Em mim, aglomeram-se multidões
Uma que canta, outra que chora
Uma que anda, outra que corre
Uma parece cair, outra se recobra
Uma que chora saudosa, outra que brinda o encontro

Em mim, habitam pessoas diversas
Uma que vive o agora, outra remove o outrora
Uma que quer silêncio e outra que cantarola
Uma presa à ansiedade, outra desfrutando o aqui, agora
Uma que ri, outra que chora

Vivem em mim tantos eus, tantos outros
Que, até no calar mais íntimo, há conversa
Uns se cumprimentam, outros não se olham
Há monstros, há deuses e há demônios
Em mim, enfim, vive um eu e tantos teus... multidões

sábado, 13 de junho de 2020

Extrema unção

Entre a esquerda e a direita há um coração, pulmões, órgãos vitais, um cérebro... No meio do caminho há vida a se respeitar.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Minha nega


Ela e suas vestes cinzas
e negras.
Sempre sedutora a me fazer
ver a vida
através de seus tecidos
preferidos.
Me seduz, me derruba, me faz
deitar
e me toma por inteiro
ou quase.
Tento me levantar, mas
as forças me fogem.
E também a vontade
de me erguer se faz ausente.
Vislumbro uma vontade,
ao menos,
de ter vontade.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Cansaço

Imagem: Google


Já apresento certos sinais de cansaço
Entremeados ao encanto
Entrelaçados ao medo

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Horizonte vertical

É como se às vezes o sol se negasse a se pôr, como que preso a um horizonte vertical, sem deixar margem ao descanso.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Verve

Cena do filme: Shawshank Redemption, 1994



A verve é morta ou sonolenta;
Faz-se ausente na presença constante.
Já não respira;
É catatônica ou esquizoide,
E se mantêm na rigidez
De quem precisa ou quer falar.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Entre vivos e mortos...

E com o tempo
foi ficando
mais e mais claro
que eles foram
enterrados vivos
e eu fiquei
morto.

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Esperançar

Numa terra distante da praia, acalma as dores à sombra
Com suas sobras e conquistas mal inventariadas

     Numa terra seca e só, na companhia apenas de animais
     Com suas dores no corpo e musculatura fraca
     Tenta respirar menos aflitamente, menos ansiosamente

Numa sombra quente próxima ao sol que brilha
Sente o vento parado ao redor e ouve os passos do cão na folhagem seca

     Numa pousada triste e vazia, descansa o corpo só
     Retira-se da companhia de ninguém, não abre portas
     Deixa-as abertas na esperança da entrada triunfal de deus, que ainda não veio