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domingo, 29 de junho de 2025

Sujeito sem jeito

Imagem: I.A. Copilot
Constrangido e engraçado,
espremido e embaraçado,
com garrafa, engarrafado,
com latência, endeusado, 

comprimido e engasgado,
saltitante e depravado,
noite afora, maltratado,
dia novo, desregrado, 

ninho feito, nó atado,
rosto bom, cabelo ralo,
perna fina, anjo alado,
doce novo, enlatado, 

feijão velho, amassado,
arroz cozido, macetado,
dia vai, dia matado,
noite chega, malogrado,
gente vem, fica engasgado,
gente vai, tá abandonado.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

Pai d'Outro

Imagem Google
Pai nosso que estais alheio 
Santificado és só por mitologia 
Venha a nós, se é teu o reino
Se é assim feita a vossa vontade 
Aqui na Terra não é um céu

O pão nosso de cada dia falta hoje
Perdoai as nossas crendices
Assim como nós perdoamos a ti que nos falha

Não nos deixeis cair na tentação 
Da religião e do misticismo 
E livrai-nos do teu Eu-Ausente
Em todo esse mal, além 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Onívoro

Na vida sou um onívoro incorrigível, exceto no sexo. Daí não sou onívoro!

domingo, 21 de abril de 2013

Vegana

Ela foi cada vez mais se inteirando sobre o mundo animal e a realidade do pensamento dos animais e, mais e mais, ficando sensibilizada. Primeiro as elementares descobertas sobre a inteligência de cachorros, gatos, golfinhos, baleias, bois, cavalos (vacas e éguas também), mas um dia foi crucial. Leu um artigo de um jornalista sobre um artigo científico onde se relatava a descoberta de que até mesmo animais como o polvo (não o povo, que nem sempre pensa) tinham consciência. Pronto, foi a gota d’água pra levar adiante não só a ideia de não comer carne, mas de, radicalmente, se tornar vegana. Trocou toda peça de bijuteria que tinha couro, trocou as pulseiras dos relógios dela e do marido e passaram a usar (a contragosto dele) somente sapatos sintéticos. De couro, nunca mais. Nada de origem animal! No começo ele ficou meio mal, adorava carne, adorava os relógios e os sapatos dos quais se desfez, mas, por amor a ela, cedeu. Comia uma quantidade enorme de proteína derivada da soja, saudável, transgênica, mas a transgenia não tinha consciência, então ok. Com essa postura dele ela foi passando a ver nele, o marido, um homem tão mais admirável do que sempre percebera que a relação, mesmo depois de mais de dez anos de casados, se aprofundou a tal nível que um parecia compreender o outro só pelo olhar e pelo pensamento. Momento mágico da relação, da renovação da relação... É o que se pensa. Nesta simbiose de pensamentos ela descobriu, para espanto próprio, que ele, o marido, não só pensava, mas assim como o polvo, o cachorro, o gato, a vaca, o boi, o cavalo e a égua, dentre outros, tinha consciência. A partir desta descoberta deixou de comê-lo. Foi o fim da relação mais perfeita de todos os tempos. Deprimido, ele saiu pra comer um hamburguer.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Diálogo

Fotografia: Ivan Bueno




Às vezes converso de igual pra igual com meu cachorro. Ele me olha profundamente nos olhos e parece me compreender plenamente. Mas o preocupante é que já eu não o entendo na plenitude, só admiro.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

É o fim

Arte: Tonho Oliveira - Porto Alegre/RS
- Faltam quantos dias pro mundo acabar?
- Trinta, né? Hoje é 21 de novembro.
- E vai começar a acabar no Japão primeiro e depois no Jalapão? Será que vão conseguir televisionar o início pra todos que estão com um fuso horário favorável, como nós?
- Pode ser, não sei.
- Jesus Cristo vai chegar antes?
- Quem?
- Jesus Cristo não vai voltar antes do fim do mundo? Onde ele vai chegar? Jesus vai nascer japonês?
- Não sei, será? Pode ser... japonês loiro, né? Barbudo, também, e de olhos claros, que é pra ficar bem coerente.
- E Neonoé já estará com a arca pronta até a data?
- Quem é Neonoé?
- Ai, que ignorância. O novo Noé, veio de Matrix, Neo-Noé, sacou?
- Ah, saquei, e ele vai nos libertar da Matrix?
- Não, só salvar um casal de cada animal. Mesmo esquemão.
- Todo e qualquer animal?
- Assim foi, assim será.
- Então, de humanos, ele só poderá levar a Trinity!
- É... pobre Jesus!
- Mas quem vai salvar, afinal, Jesus ou Neonoé?
- Se forem os dois o trabalho fica mais eficiente, não fica? Se fosse eu quem mandasse em tudo eu acionaria os dois.
- É... verdade... mas se eu fosse quem mandasse em tudo eu nem acabaria com o mundo. Estamos na era da reciclagem, eu arrumaria as coisas.
- Como?
- Sei lá, arrumaria, eu seria o todo poderoso, e todo poderoso que se preza arruma, não destrói nem deixa que destruam.
- É verdade...
- Será mesmo que vão conseguir televisionar o início do fim do mundo no Japão pra gente assistir? Nós, com fuso horário favorável?
- Não sei, ué! Fico com fuso, digo, confuso. Pode ser que sim.
- E o que você vai fazer depois do fim do mundo?
- Ah, estou pensando em férias. Mas antes tem natal, ano novo, daí em janeiro pegar uma praia. Vão tar muitas praias novas, ondas iradas.
- Puts, é mesmo, nem tinha pensado nisso! Irado! Vou comprar uma prancha nova.
- Você sabe surfar?
- Não, mas vou aprender. Neonoé não vai me convidar pra arca, mesmo.
- E desses animais que entrarão na arca, um casal de cada espécie animal, mesmo?
- É, exatamente assim.
- Isso inclui vírus, pulgas, carrapatos, mosquito da dengue?
- Ehhhhh... não sei.
- Se Neonoe e a Trinity, ainda que sem o Morpheu, deixarem esses animais pra traz eu prefiro.
- É, também, acho que sim, melhor.
- A água das novas praias vai ficar contaminada igual nas inundações comuns?
- E quem disse que vai acabar em água?
- Não?
- Não sei!
Foto: Jalapão (não Japão)
- Então porque estamos falando em arca e Neonoé?
- Ah, conjecturas, oras.
- Matrix 4?
- Pode ser que sim.
- Mas sem cinema, vai passar onde?
- No Neocinema, oras!
- Ah, é. Neoempresário neohollywoodiano. Amigo e protegido do cara lá de cima. Puts!
- Vamos sair pra olhar umas pranchas iradas?
- Bora!



Arte: 
Tonho Oliveira, mais uma vez colaborando aqui no Empirismo Vernacular. Vejam outras obras de Tonho nos blogs Pô-ética, 6vQcoisa e ArquiteTonho. Tonho é de Porto Alegre, RS.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

A história perfeita

Era uma vez o melhor contador de histórias do mundo... e ele viveu feliz para sempre.
FIM
É claro que ele encontrou sua princesa, teve saúde, paz, prosperidade, muitos amigos e morava num lugar perfeito, afinal é a história perfeita.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Ledo engano




Acham-me espirituoso...
Que nada!
Ledo engano.
Sou agnóstico puro!

terça-feira, 2 de março de 2010

Críticos inclassificáveis

- Você leu este texto?
- Sim, li. Magnífico, não?
- Sim, magnífico.
- Mas falta-lhe uma definição, uma marcação, se conto, se crônica, se poesia em prosa. Assim não pode ser.
- É verdade, um descalábrio, escrever assim sem seguir à risca o que nós, teóricos, passamos a vida em categorizar.
- E ele ousa descategorizar-se!
- Sim, é como que nos desqualificar, ao descategorizar-se.
- Absurdo!
- Um abuso, uma afronta para conosco, os críticos.
- Sem a menor sombra de dúvida. Já nem sei se gostei tanto do texto. Estava aqui a pensar na crítica a fazer.
- Também eu. Falta-lhe um estilo definido, bamboleia, é e não é.
- Soa fraco, não é?
- Muito.
- Era mesmo este texto que tínhamos dito que haviamos gostado?
- Penso que não, nos equivocamos, pois este não tem estilo definido, tem estilo de querer ser misto.
- Difícil concordar com tamanho atrevimento. Vamos à crítica que irá ao jornal?
- Sim, claro, e que dizemos?
- Penso que "Texto bem elaborado, mas fracamente definido e, por si, indefinido, deixando um vazio, uma lacuna, uma falta de literalidade imperdoável a quem quer ser escritor."
- Acho que está bom, mas benevolente. Eu afirmaria que nem é escritor.
- É verdade, mas sou mesmo um crítico benevolente.
- Se queres ser assim, está bem, mas eu pegaria mais pesado. Há de ser um conto ou crônica ou ensaio ou poesia romântica ou poesia concreta, mas algo definido. Ser simplesmente um texto, ainda que bom, supondo que o fosse, não dá.
- É isto, não tem futuro, já que não se classifica.
- Vá, pode mandar pra edição que será publicado amanhã de manhã. Mande logo.
- Ok. Mas pegando o gancho da conversa, ouviu este CD que te emprestei?
- Sim, ótimo, me arrepiei todo com os arranjos, o virtuosismo, a inspiração, a agressividade contida e mesclada com suavidade.
- Senti o mesmo, sabia que irias gostar.
- Que é? É jazz?
- Não! É um misto de jazz com rock com clássico com progressivo e tonalidades de canto gregoriano antagonizando com o instrumental às vezes ácido com fusion, enfim.
- Ah... É, muito bom mesmo, excelente esta mistura.
- Ainda bem que não somos críticos musicais, senão teríamos que dizer que não gostamos de um CD tão genial.
- Aliás, falando nisso, vi uma crítica falando muito mal deste CD, dizia que lhe falta um estilo definido e, sendo assim, não poderia ser música.
- Mesmo? Que absurdo! Que falta de ouvido.
- É, tem gente pra tudo neste mundo das críticas. Não sabem simplesmente admirar, têm a compulsão de classificar.
- Não somos assim, somos?
- Claro que não, somos justos, apenas, e entendedores da escrita. Jamais fomos injustos.
- É verdade, até me sinto aliviado de que compartilhes comigo esta opinião.
- Imagine, sei que tens bom senso, com eu.
- Vamos ouvir o CD?
- Sim. E se quiseres, podemos ler aquele texto de novo.
- Qual?
- O que criticamos. É sem estilo, mas algo me faz chegar a ele de novo e tentar extrair algo mais, embora nem possa ser considerado literatura.
- É, vamos ler, sim, e escutar o CD.
- Agora vê se fica quieto, começou a tocar, olha que primor.
- Psiu! To lendo, fica quieto também.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A pamonha

Lá vem o carro da pamonha
Lá vem o carro
Vai passar, lá vem
O carro vai passar, lá vem
Corra, pamonha!
Passou o carro, já foi
Pamonha, já foi.