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quarta-feira, 7 de maio de 2025

Fração

Imagem: A psique humana

Acho que minha vida
vai ser toda metade,
metade do que vivi,
metade do que não soube viver,
metade do que quis,
metade do que não soube ter.

Metades
nem sempre
se somam,
mas eu sou a soma
de duas metades,
sou mais que duas partes,
bem mais que isso,
sou muito mais, nem sei,
nem quero contar.

Quero apenas a paz
de poder ser
o que sou,
julgado ou não,
não me importa,
sou o que sou
e vou tentando
ser melhor na medida
do que quero
e do que posso.

Os julgamentos
alheios, os dedos apontados,
acolho, respeito,
mas não adoto.

Sei meu valor, sei
quem sou, sei
meus limites,
sei que muito não sei,
mas sigo, mesmo assim,
íntegro, ainda que
por partes,
mais, muito mais
que meras metades.

quinta-feira, 16 de março de 2023

Pré-luto II

Foto: Ivan Bueno

Viver é fazer planos
É ter planos
É ver sentido
É sentir algo vibrante
Querer, andar...

Aqui está vazio,
Aqui é dentro,
E a força se faz ausente,
Sem planos...


Florianópolis/SC
08/01/2015

quarta-feira, 15 de março de 2023

Diálogos no divã

- Então, o que é que você faz da vida?
- Acho que nunca vivi!
- Mas você está vivo!
- Sim, você é muito vivaz em seus comentários.
- E então, o que faz da vida?
- Vivo com medo, paralisado, deixando a vida passar.
- Perdendo tempo?
- É... e perdendo a vida... perdendo eu na vida, sem rumo, sem rota, sem vontades, sem energia. Acho que já me fui, ainda parecendo estar.
- Será? Visão turva.
- Não sei se turva, ácida ou clara demais.
- Pontos de vista mudam o que vemos e como sentimos.
- Estou pedindo socorro e não vejo 'salvação' pra... pra quê?... pra mim?... nem sei.
- Como tem buscado socorro?
- Gritando em silêncio ou em voz alta, passando perto do precipício sem que me vejam.
- E como se vê?
- Como um engano da natureza, um aborto vivo...

São Paulo/SP
05/04/2012 (23h57)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Two too

- Eu acredito em final feliz. - disse olhando linda e pateticamente pras estrelas no céu
- Eu acredito em final. - respondeu o outro
- Como assim? Não é feliz?
- Pode ser ou não ser, mas não é final ou talvez também não seja começo. Não acredito, simplesmente.
- Não entendi!
- Não tente, fique olhando pro céu.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

É o fim

Arte: Tonho Oliveira - Porto Alegre/RS
- Faltam quantos dias pro mundo acabar?
- Trinta, né? Hoje é 21 de novembro.
- E vai começar a acabar no Japão primeiro e depois no Jalapão? Será que vão conseguir televisionar o início pra todos que estão com um fuso horário favorável, como nós?
- Pode ser, não sei.
- Jesus Cristo vai chegar antes?
- Quem?
- Jesus Cristo não vai voltar antes do fim do mundo? Onde ele vai chegar? Jesus vai nascer japonês?
- Não sei, será? Pode ser... japonês loiro, né? Barbudo, também, e de olhos claros, que é pra ficar bem coerente.
- E Neonoé já estará com a arca pronta até a data?
- Quem é Neonoé?
- Ai, que ignorância. O novo Noé, veio de Matrix, Neo-Noé, sacou?
- Ah, saquei, e ele vai nos libertar da Matrix?
- Não, só salvar um casal de cada animal. Mesmo esquemão.
- Todo e qualquer animal?
- Assim foi, assim será.
- Então, de humanos, ele só poderá levar a Trinity!
- É... pobre Jesus!
- Mas quem vai salvar, afinal, Jesus ou Neonoé?
- Se forem os dois o trabalho fica mais eficiente, não fica? Se fosse eu quem mandasse em tudo eu acionaria os dois.
- É... verdade... mas se eu fosse quem mandasse em tudo eu nem acabaria com o mundo. Estamos na era da reciclagem, eu arrumaria as coisas.
- Como?
- Sei lá, arrumaria, eu seria o todo poderoso, e todo poderoso que se preza arruma, não destrói nem deixa que destruam.
- É verdade...
- Será mesmo que vão conseguir televisionar o início do fim do mundo no Japão pra gente assistir? Nós, com fuso horário favorável?
- Não sei, ué! Fico com fuso, digo, confuso. Pode ser que sim.
- E o que você vai fazer depois do fim do mundo?
- Ah, estou pensando em férias. Mas antes tem natal, ano novo, daí em janeiro pegar uma praia. Vão tar muitas praias novas, ondas iradas.
- Puts, é mesmo, nem tinha pensado nisso! Irado! Vou comprar uma prancha nova.
- Você sabe surfar?
- Não, mas vou aprender. Neonoé não vai me convidar pra arca, mesmo.
- E desses animais que entrarão na arca, um casal de cada espécie animal, mesmo?
- É, exatamente assim.
- Isso inclui vírus, pulgas, carrapatos, mosquito da dengue?
- Ehhhhh... não sei.
- Se Neonoe e a Trinity, ainda que sem o Morpheu, deixarem esses animais pra traz eu prefiro.
- É, também, acho que sim, melhor.
- A água das novas praias vai ficar contaminada igual nas inundações comuns?
- E quem disse que vai acabar em água?
- Não?
- Não sei!
Foto: Jalapão (não Japão)
- Então porque estamos falando em arca e Neonoé?
- Ah, conjecturas, oras.
- Matrix 4?
- Pode ser que sim.
- Mas sem cinema, vai passar onde?
- No Neocinema, oras!
- Ah, é. Neoempresário neohollywoodiano. Amigo e protegido do cara lá de cima. Puts!
- Vamos sair pra olhar umas pranchas iradas?
- Bora!



Arte: 
Tonho Oliveira, mais uma vez colaborando aqui no Empirismo Vernacular. Vejam outras obras de Tonho nos blogs Pô-ética, 6vQcoisa e ArquiteTonho. Tonho é de Porto Alegre, RS.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A ressurreição de Lázaro

- Olá.
- Olá.
- Tenho algumas verdades a te dizer.
- Pois diga.
- Na realidade são duas coisas, as demais são ramificações e consequências dedutíveis.
- Vá lá, diga.
- Teu verdadeiro nome é Lázaro.
- Já o suspeitava. E que?
- E não há nenhum cristo a vir te salvar.
- Já o sabia.
- Não trago novidades, então?
- Não, apenas confirmas aquilo de que suspeitava, quase sabia.
- Já o sabes agora, então.
- Sim.
- Nada mais, me vou pra as outras paradas. Vida de mensageiro de notícia única.
- Vá com deus.
- Olha lá esta ironia.
- Desculpe-me, não foi a intenção.
- Sempre é.
- Será?
- Sim, sempre.
- Discutível.
- Discuta só, pois me vou só. Adeus.
- A deus.

          Pintura:
           A Ressurreição de Lázaro - Van Gogh

domingo, 31 de outubro de 2010

Opa!cidade

- Não vejo brilho nos seus olhos, no seu semblante, no seu ser e agir. Que há? - peguntei a ela, interessado

- Estou sem bateria desde sempre. - respondeu-me secamente e seguiu








     Pintura:
     Amadeo Modigliani

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Hastear bandeiras

- Cadê a bandeira branca?
- A nossa já hasteamos, senhor.
- Disso sei, quero saber da bandeira branca deles. Não hastearam?
- Não, senhor.
- Mas nos disseram que iriam hasteá-la tão logo hasteássemos a nossa!
- É uma guerra.
- Mas há de se ter princípios até mesmo numa guerra.
- A falta de princípios é o principal princípio nas guerras, senhor.
- Tem razão, soldado.
- Obrigado, senhor.
- Não me chame de senhor, soldado. Estamos todos na mesma trincheira, sujeitos à mesma bomba, à mesma morte. De que servem títulos no mundo? Senhor, doutor, digníssimo, excelência? Isto só alimenta egos... Vamos todos apodrecer na trincheira, mesmo.
- Sim, senhor.
- Deixe a bandeira branca hasteada, a nossa, mas antes me chame de você.
- Sim, senhor: você.
- Mas aí ficou estranho!
- Desculpe, senhor.
- Ai, deus, vá logo e deixe nossa bandeira branca hasteada. Se as bombas vierem, minha consciência estará tranquila de não ter matado inocentes do outro lado. Cumpri minha parte, ao menos.
- Você tem razão.
- Agora sim... você! Gostei. Estamos na mesma trincheira.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um diálogo

- O seu psiquiatra é bom?
- É ótimo. Uma coisa de louco!
- Vou lá... E seu analista?
- Ah, só Freud explica. Me acha um neurótico, vê se pode!

terça-feira, 2 de março de 2010

Críticos inclassificáveis

- Você leu este texto?
- Sim, li. Magnífico, não?
- Sim, magnífico.
- Mas falta-lhe uma definição, uma marcação, se conto, se crônica, se poesia em prosa. Assim não pode ser.
- É verdade, um descalábrio, escrever assim sem seguir à risca o que nós, teóricos, passamos a vida em categorizar.
- E ele ousa descategorizar-se!
- Sim, é como que nos desqualificar, ao descategorizar-se.
- Absurdo!
- Um abuso, uma afronta para conosco, os críticos.
- Sem a menor sombra de dúvida. Já nem sei se gostei tanto do texto. Estava aqui a pensar na crítica a fazer.
- Também eu. Falta-lhe um estilo definido, bamboleia, é e não é.
- Soa fraco, não é?
- Muito.
- Era mesmo este texto que tínhamos dito que haviamos gostado?
- Penso que não, nos equivocamos, pois este não tem estilo definido, tem estilo de querer ser misto.
- Difícil concordar com tamanho atrevimento. Vamos à crítica que irá ao jornal?
- Sim, claro, e que dizemos?
- Penso que "Texto bem elaborado, mas fracamente definido e, por si, indefinido, deixando um vazio, uma lacuna, uma falta de literalidade imperdoável a quem quer ser escritor."
- Acho que está bom, mas benevolente. Eu afirmaria que nem é escritor.
- É verdade, mas sou mesmo um crítico benevolente.
- Se queres ser assim, está bem, mas eu pegaria mais pesado. Há de ser um conto ou crônica ou ensaio ou poesia romântica ou poesia concreta, mas algo definido. Ser simplesmente um texto, ainda que bom, supondo que o fosse, não dá.
- É isto, não tem futuro, já que não se classifica.
- Vá, pode mandar pra edição que será publicado amanhã de manhã. Mande logo.
- Ok. Mas pegando o gancho da conversa, ouviu este CD que te emprestei?
- Sim, ótimo, me arrepiei todo com os arranjos, o virtuosismo, a inspiração, a agressividade contida e mesclada com suavidade.
- Senti o mesmo, sabia que irias gostar.
- Que é? É jazz?
- Não! É um misto de jazz com rock com clássico com progressivo e tonalidades de canto gregoriano antagonizando com o instrumental às vezes ácido com fusion, enfim.
- Ah... É, muito bom mesmo, excelente esta mistura.
- Ainda bem que não somos críticos musicais, senão teríamos que dizer que não gostamos de um CD tão genial.
- Aliás, falando nisso, vi uma crítica falando muito mal deste CD, dizia que lhe falta um estilo definido e, sendo assim, não poderia ser música.
- Mesmo? Que absurdo! Que falta de ouvido.
- É, tem gente pra tudo neste mundo das críticas. Não sabem simplesmente admirar, têm a compulsão de classificar.
- Não somos assim, somos?
- Claro que não, somos justos, apenas, e entendedores da escrita. Jamais fomos injustos.
- É verdade, até me sinto aliviado de que compartilhes comigo esta opinião.
- Imagine, sei que tens bom senso, com eu.
- Vamos ouvir o CD?
- Sim. E se quiseres, podemos ler aquele texto de novo.
- Qual?
- O que criticamos. É sem estilo, mas algo me faz chegar a ele de novo e tentar extrair algo mais, embora nem possa ser considerado literatura.
- É, vamos ler, sim, e escutar o CD.
- Agora vê se fica quieto, começou a tocar, olha que primor.
- Psiu! To lendo, fica quieto também.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Subjetividades do Nariz... (ou da lingua?)

- Não gosto do gosto da tua lingua.
- Que isso?! Por que?
- Não sei, não gosto, e nem dos movimentos.
- Como assim?
- São desordenados, desconexos. Parece-me uma lingua em ataque epiléptico.
- Que absurdo! Por que sais comigo?
- Algo me agrada.
- Não o beijo?
- Não, nem o gosto da lingua.
- Do que gostas?
- Teu cabelo, teus seios, tua pele, os pelinhos dourados, a inteligência...
- Não gosto de jiló!
- O que tem a ver?
- Disseste que não gostas do gosto da minha lingua... É como jiló?
- Não, é gosto único, teu.
- Tão ruim?
- Não!
- Quero-te!
- Talvez te queira, mas ainda não sei.
- Depende da lingua mudar de gosto?
- Não, lingua não muda de gosto. O que muda, às vezes, com costume, é o paladar. Por hora está tudo com o gosto estranho.