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terça-feira, 24 de março de 2026

Não sei...

Imagem: Internet
Não sei chorar baixinho.
Meu choro é grito, protesto, soluço.
É choro forte,
por isso, talvez, o conhenha,
por não saber chorar baixinho.
Quando sai, sai grito, sai urro,
sai tanta dor que me parece
desvanecer qualquer cor.
As lágrimas não escorrem,
não com suavidade. Não é choro manso,
nem tampouco resignado,
antes revoltado;
protesto que atesto
de tanta coisa que contesto
nesse contexto de mundo,
nesse contexto de vida,
nesse contexto de ser... E ser o quê?
Com tantas exigências,
contendo e retendo carências...
Ser o quê?
O que o mundo, com sua podridão, espera?
O que a vida, ilógica, nos impõe?
Não! Não sei.
Grito, clamo numa voz que ecoa
sem resposta,
e fico rouco ou, talvez, pouco,
e me calo, pois não sei
chorar baixinho.
Chorar sereno, não sei.
E calo, e vivo, e engulo,
mas a revolta é viva e o grito,
vez por outra, sai...
E sai também o suluço
com um choro sonoro,
forte, eloquente, de morte... Não! 
Isso é vida em crescer.

Ivan Bueno
11/09/2004 (00:18)

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Acariciado...

Imagem: paisagem qualquer (internet)

A carícia dos escassos ventos de Goiânia passam pela minha cabeça, meus cabelos, minha face, nuca e se faz sentir no corpo, apesar das vestes, como um carinho a me apaziguar. O Sol, de dia, e a Lua, à noite, parecem sorrir sempre, ainda quando o céu está nublado e chove torrencialmente, acalmando a terra sedenta que ecoa na nossa terra interna, nossas origens, igualmente sedentas. Deus parece estar de bom humor e se faz sentir no canto dos pássaros e em tudo que há. Não falo de um deus personificado, não o é, mas de tudo o que está além da nossa compreensão e que, por tal, é a causa primeira de tudo, até que se prove o contrário. Ando, como consequência, feliz e grato por tudo que a vida me deu, me dá e me dará, até o fim. Meus pulmõs estão plenos de oxigênio e alegria, meu coração sorri, meu corpo se deleita, minha alma brilha. O dia a dia tem sido um acúmulo de aprendizado e crescimento rumo ao infinito.

domingo, 18 de agosto de 2024

Seguinte

A vida vai morrendo paulatinamente, dando suspiros de angústia e sinais de desespero lá no mais intimo. A razão de estar presente dá sinais de fraqueza, as cores vão se desfazendo, o cinza se espalha, o céu fica nublado.
E de repente o precipício da janela do edifício alto convida ao voo rasante com pouso de emergência. Salvamento tardio. "Moço feito passarinho, avoando de edifícios..." que me perdoe Chico Buarque.
A razão ainda prevalece e salva. O teste é difícil, como são os intentos de deus em destroçar os homens. 
Sigo...

domingo, 14 de abril de 2024

Ilusão

Mesmo instante, distante, à emoção da loucura tangencial, crê-se sacrossanta e se ajoelha diante do barro do qual supõe ter vindo – aquele em forma de gente, esta em forma de estátua – e mergulha no absurdo: ao crer no incrível, ao conversar com o invisível, ao ouvir o inexistente e ao ver o que não está nem há. Sente-se maior, crê em ‘si-mesma’ como especial e crível.

segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Hein?!!

Tantos tântricos prazeres, que pela dor difundem quereres, dizeres tolhidos em silêncio, têm em si a gama e a cor do viver, se expresso em grito e gozo, senão morte, falta de sorte ou luto que não se finda.

Arrega-te à dor do prazer tolhido, do gozo recolhido, e finda-te em orgasmo teórico, louco, insano e,  talvez nada disso, tão apenas incompreendido, aquém do tempo.

Assopram-se velas sem fogo, é um parabéns de luz sem chama, que arregaça as mangas da energia que não se vê, mas se sente, não se explica, mas se aplica, não tem prova, mas se prova, vai além, e talvez nem exista. 

quinta-feira, 16 de março de 2023

Sombras

Foto: Ivan Bueno
Fragmentos da sombra de uma cortina barata se projetam na parede branca recém pintada. O vento vem suave do mar azul e calmo. Os móveis miram em silêncio a vida que transita provisoriamente ali. Histórias cruzadas, sabe-se lá por quê. Vozes que falam ou calam, almas que gritam, ainda quando o ego nega. Transitam pelo mundo como fragmentos de sombras de seres que são tudo em si e nada no todo. Importantes sem importância, carregando suas belezas peculiares. É vida, é sombra, é dança...


Florianópolis/SC
06/01/2015

quarta-feira, 15 de março de 2023

Diálogos no divã

- Então, o que é que você faz da vida?
- Acho que nunca vivi!
- Mas você está vivo!
- Sim, você é muito vivaz em seus comentários.
- E então, o que faz da vida?
- Vivo com medo, paralisado, deixando a vida passar.
- Perdendo tempo?
- É... e perdendo a vida... perdendo eu na vida, sem rumo, sem rota, sem vontades, sem energia. Acho que já me fui, ainda parecendo estar.
- Será? Visão turva.
- Não sei se turva, ácida ou clara demais.
- Pontos de vista mudam o que vemos e como sentimos.
- Estou pedindo socorro e não vejo 'salvação' pra... pra quê?... pra mim?... nem sei.
- Como tem buscado socorro?
- Gritando em silêncio ou em voz alta, passando perto do precipício sem que me vejam.
- E como se vê?
- Como um engano da natureza, um aborto vivo...

São Paulo/SP
05/04/2012 (23h57)

terça-feira, 14 de março de 2023

Menino

Foto: Ivan Bueno

Sempre fui infantil em todas as vezes em que não consegui ser criança. É preciso "emeninecer" um pouco a cada dia, rir, chorar, ter curiosidades, correr atrás, não ter medo de ter medo, errar, perguntar, aprender e sorrir.

04/12/2011 (19h34)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Ignóbil

Devagar com o andor que o santo é de barro... Opa! Opa! Não é santo... Mas de barro é. Mal moldado de origem, trincou-se ao primeiro tranco. Vem sendo carregado, idolatrado, cultuado... há anos. Isso virou seita, adoração, virou crime sem perdão. Santificado, o santo, se escondeu sem santidade e nenhuma humanidade. Santo sem milagres, messias sem mensagem; mito, imagem rota de mentiras. Seita de lunáticos a segui-lo, homens bomba, cabeças de intestino a desejar outro destino... imposto. Impostor! E ao fundo, hipócrita e absurdo, tudo dito e feito em nome de "Deus". E Ele, se Ele há, se contorce de angústia e pensa, impotente, que a idolatria ao anticristo chegou. 

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Tecidos

Desconheço teu rosto em face à face que me beija, sem língua a se intrometer, assim como desconheces minha face, sem língua a se intrometer. Há beijo, pouco tato no beijo, há pouco ranço, pouco hálito, pouca entrega, pouca coisa que se esfrega. Tudo meio incompleto. Rostos cobertos, a face do medo. E o que parece entrega é teatro, é cena, é figura, é arte da falta de vida. Desconhecemos nossos rostos internos e externos, assim como desconhecemos nossos ids, egos e superegos, que nos comandam eternamente por debaixo dos panos. Não nos conhecemos sequer minimamente e arrotamos arrogância mundo afora. Rostos cobertos, beijos vazios, mãos tateando temerosas no escuro.

terça-feira, 5 de abril de 2016

Desilusão...

Viagens alucinantes já não me fascinam mais, não no campo da suposta realidade. Tomaram seu lugar, definitivamente, na área da ficção científica e da diversão. Não espero magia da vida, ou espero pouca, sem ilusão, apenas com uma réstia de esperança semiperdida. Tudo que é zen demais, me irrita, cai no ilusionismo, no autoengano, na magia fácil, no engodo. Espero pouco das orações, mas as faço assim mesmo. Não acredito em deus, mas o invoco quase todo dia, assim como os santos e os que se foram pro outro lado. Só acredito na magia do que é corriqueiro e natural, ainda que possa, às vezes, ser raro. Não quero me alucinar, quero me apaziguar. Que os demônios vivos mantenham boa distância.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Anfíbios

Mantinha-se na superfície por medo do mergulho. O corpo grande e belamente torneado não seria empecilho para ir e voltar, conhecer o profundo e respirar na superfície. Mas resistia, apesar da patente capacidade do mergulho. Somos anfíbios, afinal, mas muitos não se dão conta disso. Mamíferos? É um mero detalhe de nascença. Poderia aprofundar-se, descobrir e deixar-se descobrir raridade preciosa. Na superfície, pequenas marolas, turbulências falsas, aparências fúteis. No fundo, a riqueza real, a vida mesmo, a maior quantidade de seres profundos. Corre-se o risco dos afogados, sem dúvida, mas estes acabam por boiar. Resistia, ela, ainda assim. Nem a capacidade de reter o ar, nem o escafandro disponível a demoviam da superfície com facilidade. Ultimamente, no entanto, arriscava-se a enfiar a cara n’água pra olhar lá dentro.

domingo, 10 de maio de 2015

Os cantos daí...

Mimi e Tia Elza / 2006
Hoje, dia de mesa cheia, charuto, quibe, feijão árabe, mijadra e tantas conversas, risos e comemorações. Mas a mesa que estaria cheia, hoje está vazia, silenciosa. O vento sopra e balança as folhas de papel. Pode-se ouvir o barulho minúsculo das teclas do notebook, a respiração do cachorro que dorme no chão, da gata deitada no bicama, o cantar de um passarinho numa árvore, a voz de uma criança das redondezas e o silêncio do ar. Ouve-se o céu, ouve-se do céu. Daqui, não o mar, mas seriam belas ondas a entoar seus versos de marola. As nuvens passam esparsas nesse dia ensolarado e rememoramos você, vocês, mães nossas que já foram daqui praí, logo ali, dizem ser. O interfone não vai tocar e nem haverão mesas emendadas pra que todos se sentem. Os corações ainda vibram cheios de amor e batem compassadamente por vocês. Os pássaros cantam felizes e em uníssono aqui, ali, acolá e, é provável, até mesmo aí. Feliz, mãe... feliz, mães. Não se concentrem nas lágrimas que escorrem, mas no amor que se carrega na alma. Feliz dia, feliz dias...

terça-feira, 10 de março de 2015

Peça

Era um teatro. Sorrisos públicos e recriminações privadas. Era um teatro de bem querer e aceitação, enquanto lá dentro queria-se um molde, um satélite que orbitasse ao redor do que nem sequer era sol. Era um teatro mal dirigido, com público restrito, que só durou o tempo necessário pra que um dos protagonistas desistisse da peça, por não querer as peças que a vida nos prega. O papel que nos cabe e a forma de atuar têm que ser observados com cuidado.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Seguir

Foto: Yves Amui






A vida enche meus olhos de lágrimas e minha boca de sorrisos, me faz cuspir gritos de alegria e horror, e vomitar coisas mal digeridas, perder o fôlego e depois respirar o ar mais puro que me cabe e que resta nesse mundo belo e feio, mas que ninguém quer largar. A vida me traz sabores e dissabores, mas com tempero tudo se cozinha e pode ficar melhor. A vida me faz crescer e eu faço a vida maior nesses passos e tropeços. Quero ficar mais firme e ereto, mais alegre e discreto neste vai e vem que nos apara arestas e nos abre frestas. Quero seguir.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Oxalá!

Estava eu aqui rezando por você quando me dei conta de que sou agnóstico, de forma que pode ocorrer de também deus duvidar da minha existência e não querer me atender, pensando ser eu uma alucinação sua, alucinação divina! Será, pois, que todas as orações são assim como zumbidos que passam de um lado a outro pela cabeça de deus? Entram por uma orelha e saem por outra – e devem ser orelhas enormes – sem surtir praticamente efeito algum? Entram cheias e carregadas de esperanças e saem às vezes murchas e incrédulas diante da surdez ou do mutismo do ser a quem foram direcionadas. A questão é, meu caro amigo, que recebi notícias de que você estava melhorando, ainda que eu não tenha rezado a contento e que deus continue sendo esta incógnita idolatrada salve salve. Tomara que salve.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Femme fatalle?

Menina, você não precisa fazer "cara de sexy" para ficar sexy! Não precisa fazer bicos, bocas, olhares e poses forçadas para se fazer de "femme fatalle" ou para se sentir uma... Aliás, quando você fica o mais natural e relaxada possível é quando te acho mais sexy. Quando você tenta ficar sexy, artificialmente, ou fica narrando assuntos que te "engrandessem" e te "promovem", supostamente, é quando fica menos atrativa. Os atrativos são, e têm que ser, naturais. Vai, relaxa, garota. O que é bom vem de dentro.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Velha lacuna

Ainda com o tempo de tantos anos decorridos, o menino procura sua mão e tenta alcançá-la em algum lugar que não sabe onde. Hoje faria 93 anos o homem, mas há 40 anos já se foi. A orfandade vem e fica, imposta como tudo que a vida impõe, jamais democrática. A orfandade faz o órfão e assim este permanece com uma lacuna incomensurável, uma ausência jamais preenchida, um amor interrompido antes que se possa até mesmo compreender a morte, o que é, por que é. E ninguém sabe, só sabe que é um findar inevitável, aleatório, com poucas lógicas. Um adeus, um desaparecer eterno. Teorias em contrário impostas na cabeça da criança de 6 anos fizeram mais estragos do que se pode imaginar. E hoje à noite talvez pudesse ser mais uma noite de simples comemoração com café fresco e pão de queijo feito em casa, bem ao estilo de um mineiro apreciar as presenças. Mas não vai ter festa nem celebração, vai haver apenas memória, saudade e lacuna, que é assim que sempre foi. A lacuna se fez, e do menino fez lacuna a vida, os desejos, as conquistas, a degradação. O adeus é algo profundamente destruidor, e corrói, e marca, e destrói nesta corrosão eterna e irreversível. O raciocínio lógico jamais foi capaz de dirimir os estragos, por mais que se tenha tentado, por mais que se continue tentando. O menino continua só, desamparado, pedindo socorro sem que se ouça sua voz, seus gritos, sem que se vejam suas lágrimas, sem que o menino se descubra homem, pois permanece criança solitária com as pequenas mãos estendidas em espera das mãos do pai, que já não pode mais ouvir porque já não mais é nem pai nem nada, deixou de ser, foi a sete palmos. Ainda o menino vê o homem, o herói, desabando diante de si. Ainda o menino se vê, simultaneamente, desabando e se vê desabado, destruído. Ainda o menino se vê menino e não homem, a despeito do tamanho, da idade, do que for.

domingo, 28 de outubro de 2012

Cataratas

Foto: Jorge Alfar (site Olhares.com)
Ela tenta sorrir, tenta ver algum brilho na vida com os olhos opacos de catarata, vendo tudo amarelado, acinzentado, desanimado como fotonovelas antigas, sem trilha sonora. O choro, inevitável e contido, escorre timidamente e ela se pergunta por que sente tanta angústia, por que quer chorar, por que está assim triste. É que o fim se aproxima, ainda que vagarosamente, e é difícil olhar o fim da linha do trem quando não se quer desembarcar, quando nem há estação final, mas tão somente um final incerto e duvidoso. Ela tenta sorrir, sai amarelo como a catarata que lhe encobre os olhos; ela tenta brincar, mas entremeia algum sorriso a muitos choros e queixas; ela tenta encontrar um sentido que talvez não exista se não conseguirmos conferir algum sentido à existência, e não é tarefa fácil. Viveu, estudou o pouco que pôde, trabalhou exemplarmente, casou-se, teve filhos e seguiu, mas sempre antevendo os sintomas da catarata da alma, agora também nos olhos. Cataratas assim fazem desaguar águas, rios e rios de lágrimas que podem escorrer pra dentro ou pra fora, mas deságuam. Não são cataratas belas como as da natureza, as de águas doces. São cataratas de angústias, dúvidas, medos, ansiedades e inquietudes doídas. Ela segue por falta de opção, a mesma falta de opção que acomete todos os seres vivos animados, ainda que desanimados, mas não inanimados. Ela olha o chão como quem escava a terra com o olhar, alcançando o infinito. Ela busca ela mesma e busca o que a vida lhe deu, e pouco encontra. Ainda assim há o apego à vida e o medo do sofrimento já visto na rata final de outros próximos, e sabe que a idade lhe impõe isto. Talvez, como eu, ela deseje um final em sono tranquilo e despercebido, sem prolongamentos desnecessários. Que assim seja, caso haja alguém a comandar alguma coisa. Ela também duvida disto. Todo mundo duvida, e às vezes os que mais afirmam certezas assim são os que mais duvidam, mas jamais dão o braço a torcer pois precisam se agarrar a qualquer tronco podre que se encontre boiando.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Por tudo

Saiu de casa, viajou mundo, conheceu vários países e culturas, escalou montanhas, esquiou, brincou de neve, lutou pela defesa dos animais para ter status, foi a shows, fez comerciais, teatro e cinema, quase se tornou celebridade e daí se deu conta de que o tempo estava, ainda que não quisesse, passando assustadoramente rápido, num trote frenético, cavalgava.
E assustada, viu as pendências que tinha na vida, as atenções que não deu enquanto só vivia para si, sentiu um vazio imenso dentro dela, uma saudade gigantesca das pessoas de quem se afastou, dos lugares simples que não valorizou, mas aquela figura sombria vestida de preto foi se aproximando resoluta. Era tarde. Pereceu, sucumbiu nas mãos da morte que, esta sim, seguiu seu caminho certo de ir ceifando vidas por onde andava, e andava por todos os ondes.