quarta-feira, 31 de março de 2010

Nós

Somos um monte de nós
Cada um é só
Juntos, ainda sós, ainda nós
Emaranhados
Fios desconexos ou entrelaçados
Complicados, sós
Soldas, parafusos, loucos e confusos
Relações perigosas
De nós com nós, em laços que se desenlaçam
Religações temerosas
De um só com só-nó que é nó-gente que destrambelha só

Lamento só

Hoje que só o pranto
Em terra arada, seca e sem vida
Se faz vencer

Sorrio como bobo
Que a corte está feita no desfazer
Desapareço em mim

Iludo-me eu só
Vejo-me e sou visto a chorar, sim
Se não se aproximam

É só desfeita
A terra arada não é terra semeada
Se nasce algo, é praga

Puro capim só
Pranto que pleiteia atenção e vida
Não adianta dolo

Hoje que só é pranto
Em pranto e riso bobo se desfaz
Faço coro, canto

domingo, 28 de março de 2010

Instinto persecutório

Será que seguimos nossos instintos
Ou são nossos instintos que nos seguem?
Vejo por perto sempre uma sombra
Não desgruda de mim!
É perseguição, tem bafo, tem rosnado
Tem gosto de mim.
Se não gosto dele, pouco importa,
Vem ao encalço, o bafo,
Rosnado forte, patada cruel, selvageria...
Será ele ou serei eu?
Instinto maquiavélico, verso satânico,
Divina comédia, instantânea.
Uma hora me alcança o instinto todo
Noutra me entrego a ele eu
O desfrutar da vida como um todo é meio:
Metade razão, metade instinto
Há quem diga que nisto me engano: minto,
Mas o bafo devorador, eu sinto!

No ser

Em nossos olhos
Reflexos, líquidos, músculos
Em olhos nossos
Imagens, ilusões, lágrimas

Em nossas bocas
Sorrisos, falas, ditos, mitos
Em bocas nossas
Lábios, beijos, dentes, mordidas

Em nossas mãos
Direções, restrições, vidas
Em mãos nossas
Afagos, egos, dez dedos, ação

Em nossos peitos
Respiração, transpiração, ar
Em peitos nossos
Batidas, feitos, orgulho ou não

Em nossas pernas
Caminhar, seguir, andar ou correr
Em pernas nossas
Capacidade, entrelace, amor

Em nossos corpos
Gente, alma, interrogação, ser
Em corpos nossos
Latência, querência, posição, poder

Em nosso ser
Alma, espírito, corpo, vida e morte
Em ser nosso
Ser ou não ser, é uma boa questão


Figura:
O Homem Vitruviano - Leonardo da Vinci (1490)

sexta-feira, 26 de março de 2010

Impossibilidades

Nunca seremos capazes de nos desvencilhar de nossas próprias sombras... Tampouco seremos algum dia realmente capazes de olhar nos nossos próprios olhos.

A tentar (culinária)

Mais uma receita dada
A saber se será boa
A tentar!

Pois com receita é assim
Sem tentar, sem saber
A tentando!

Outra receita e foi nada
Passou do ponto bom
Foi a tentado!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Aforismos adentro

DA CHUVA
Dizem por aí que a chuva são as lágrimas de deus que ele derrama pelos homens. Duvido! Acho que são puro suor vertido nessa batalha dele mesmo com o que criou e não consegue ordenar.

ESPANTALHO
Sou como um espantalho,
Mas não porque afugente os pássaros.
É que aos olhos deles me pareço vivo.

RACOFAGE
Existem várias espécies de seres humanos: alguns humanos, mesmo, e outros totalmente animalescos. Biologicamente, no entanto (na classificação das raças, classes, ordens, famílias, gêneros e espécies), são tidos como uma coisa só. A ciência se engana muito, também. Se esquece de olhar a alma quando só classifica massas vivas.

ZOMBARIA
Há quem zombe dos fracassados. Mas, ah, pra que? Os fracassados são já, por si só, a representação máxima da zombaria aos bem sucedidos. Será revanche?

DUENDES
Existe política sem politicagem? Existe humanidade sem maldade? Acho que são coisas que todo mundo diz que existe, mas nunca viu, como os duendes.

DUENDES II
No meu jardim apareceram duendes, correram, brincaram, esconderam-se uns dos outros, cuidaram das plantas e dos pequenos animais, como alguns sapinhos que há por aqui. Achei lindo. No final do dia me trouxeram a conta. Deus meu! O capitalismo chegou aos contos de fadas! Já têm até sindicados.

ANULAÇÃO
O mesmo que não fazer nada é querer fazer tudo.

REPRESENTAÇÃO
Dizem que os políticos nos representam. Acho mesmo que é verdade. Eles recebem por nós, usufruem por nós, gastam por nós, comem e bebem por nós. Na hora de votar até nos dão tapinhas nas costas. Não são uns amores de candura?

CRIAÇÃO
Deus criou o mundo em seis dias, no sétimo, merecidamente, descansou. Pena a semana ser tão curta, pois não deu tempo de revisar tanta coisa mal feita!

HERESIA
Dizem que hereges, após a morte, vão para o inferno. Será, então, que é quando terão a oportunidade de conhecer a criação máxima de deus?

SOCRÁTICO
Eu não nasci sabendo das coisas, claro que não. Fui crescendo e aprendendo, até cheger aqui hoje sabendo o que já se sabia: que nada sei.

AUTO-AJUDA
Não existe nada mais deprimente do que estes e-mails contendo arquivos PPS com mensagens positivistas. Já causaram muitos enforcamentos!

ENCANTO
O encanto está, às vezes, onde menos se espara e, às vezes, deixa de estar onde mais se imagina.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Desilusão

O que será de um ser iludido?
Um achado?
A ilusão não alimenta
Nem sequer inventa
Desconstrói!
Desorienta o sentido da vida.
Abre feridas
Desnorteia sentimentos
Muda a ordem do nada
Muda a desvalorização
Valora, por baixo!
O indivíduo desiludido
Fica escondido
Nem se expõe ao ridículo
Fica fantasiado
Foge da luta
Pelo que nem sente
Tateia o visível
Alcança o possível
Despretensão?
Desilusão!
Obs.:
Este poema surgiu do poema Ilusão, do blog Periódico Subversivo, de Aline Morais (global), como uma "brincadeira" de inverter as idéias do poema original. Foi publicado em primeira mão no Periódico e, agora, aqui. Não é um poema 100% meu, uma vez que se originou de um poema dela, é, portanto, uma espécie de co-autoria, então. Beijo, Aline.
O poema original, Ilusão, pode ser visto no blog http://www.alinemoraisfarias.blogspot.com/ ou aqui mesmo, logo aqui abaixo destas linhas aqui, ó.
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ILUSÃO

Aline Morais

O que será de um ser desiludido?
Perdido!
A ilusão alimenta
Mais do que inventa
Reinventa!
Orienta o sentido da vida...
Seca feridas
Mapeia os sentimentos
Muda a ordem de tudo
Muda a valoração
Desvalorização!
O indivíduo iludido
Não fica escondido
Se expõe ao ridículo
Fica nu
Luta inocente
Pelo que sente
Tateia o invisível
Alcança o impossível
Pretensão?
Ilusão!

terça-feira, 23 de março de 2010

In verso

Ah, hoje não sai poema
Hoje não sai quase nada
Nem sob mira de força armada
Hoje poema é estratagema
De fuga
De gula
Engulo palavra sem dizer
Sem nem mesmo escrever
Hoje não to prosa
Hoje não to verso
Hoje to do avesso, to inverso

sexta-feira, 19 de março de 2010

Piscadela

Era tarde, fim de semana, tinha de ser. Tinha 13 anos de idade e cursava a 6ª série do primeiro grau no Ateneu Dom Bosco. Estava com o sobrinho da vizinha, tomando conta do pirralhinho que eu adorava (sempre adorei crianças) e fui levá-lo para a casa da avó, a vizinha. A casa ficava nos fundos de outra casa, ambas antigas, mas em estilos distintos, sendo a dos fundos mais antiga que a da frente. Tinha portas e janelas de madeira maciça com venezianas e, para o caso das janelas, havia aquela tramela, uma espécie de trava, que ficava do lado de fora para prender a janela, quando aberta. A janela era alta, a tramela era alta, consequentemente. O pirralhinho, a quem chamávamos de Chico Maraca, mas tinha o nome de João Daniel, saiu correndo atrás de uma barata e eu, instintivamente, me curvei pra correr atrás dele e evitar que pegasse a barata. Tummmmmmmmm!!! Meti a testa, do lado esquerdo, bem na sobrancelha, na tramela. Ergui-me tonto e, de repente, perdi a visão do olho esquerdo. Levei a mão ao olho e jorrava sangue. Reação imediata, sair de lá "calmamente" gritando "To ceeeeego, to ceeeego" e logo cheguei em casa. Éramos vizinhos de muro, mesmo. Minha mãe, já tendo ouvido o grito desde o nascimento, foi até o portão que dava entrada do alpendre-garagem para o quintal, viu a situação (nada bonita), segurou nos meus braços, olhou nos meus olhos (mas não sei se nos dois, já que um não era visível) e me disse, de forma firme, "Meu filho, você tem outro olho". Genial! E eu nem tinha pensado nisso. Eu tinha outro olho! Pra que me desesperar, então? Que besteira. Dizem que a mãe do Saci Pererê disse a mesma coisa pra ele quando ele perdeu a perna: "Saci, meu filho, você tem outra perna", e ele saiu feliz e sapeca pulando na perna restante. Comigo foi diferente a aceitação. Fui levado ao banheiro, sangue jorrando. Ao chegar ao banheiro, e minha mãe pedindo calma (afinal eu tinha mesmo outro olho), olhei-me no espelho e vi o estrago: sangue coagulado, sangue jorrando, a sobrancelha partida em duas, mas próximo do nariz, a um terço aproximadamente, e a parte externa da sobrancelha estava lindamente caída em cima do olho recíproco, que não era visível. Visível era, também o osso da minha testa. Não foi corte, foi rasgo. Soro fisiológico, lógico!, água limpa, algodão e, claro, muita calma. Minha mãe sempre teve muito jeito pra isso e, apesar da frase infeliz, embora realista, mantinha a calma e o controle. Foi limpando super hiper cuidadosamente, removendo sangue coagulado com a maior delicadeza possível e necessária. De repente sai um coágulo enorme, percebo luminosidade, ela limpa mais e eu exclamo "To vendo". Foi por um triz. Minha pálpebra chegou a se arranhar, mas o olho estava intacto... O osso da testa, também, e bem visível, branquinho. Pegamos o Trovão Azul, nosso fusquinha modelo/ano 1971 (ainda vivo) e, em caravana (por que? Não sei!) fomos procurar um pronto-socorro que fizesse um servicinho bom. Foi difícil achar, porque queriam que me dessem pontos dignos. Foram 3 camadas de pontos, 21 pontos no total. Hoje não dá pra notar, a não ser que eu mostre. Ficou perfeito e me dei melhor que o Saci.
O Chico, que tinha este apelido porque o pai dele tinha mania de colocar apelidos nos filhos que não tinham nenhuma correlação com o nome, era um menino lindo, inteligente. Nesta época devia ter uns 2 anos de idade. Cresceu, mudaram-se de lá para a Nova Suíça numa casa com quintal grande e árvore enorme. Estudava de manhã. A árvore grande começou a atrapalhar e tornou-se um estorvo. Que eu saiba ela estava apodrecendo. Foi contratado um jardineiro ou algo que o valha para remover a árvore. O Chico chegou da aula perto da hora do almoço, foi até a cozinha tomar água, tinha então 14 anos de idade, e saiu no quintal enquanto o homem trabalhava sem perceber sua chegada. Sem aviso, embora tenha havido a tentativa de aviso do irmão dele, um galho recém serrado se precipitou do alto da árvore e caiu bem em cima do Chico. João Daniel morreu! Seu irmão, que viu tudo, nunca mais voltou ao normal. Já se passaram 2 décadas e o choque permaneceu, anulou-o. Nunca mais os vi, embora tenhamos ocasionalmente contato com a avó dele, já com mais de 80 anos atualmente. O Chico, que era João Daniel, foi a primeira criança a que me afeiçoei de verdade, talvez expondo meu instinto paterno (e não fui pai, ainda). Me lembro dele é pequeno, quando era vizinho da minha casa, mas quando recebi a notícia me recusava a acreditar. Acho que ainda não acredito. Tem certos absurdos que são tão imbecis que é difícil de crer na co-incidência dos fatos, da simultaneidade. A isso se chama tragédia, perda, dor, lacuna.
Meu olho está aqui, intacto, perfeito, e a saudade também. Saudade do Chico e de tantas outras pessoas das quais já me despedi para o "além". Saudade, Chico. Piscadela de olho esquerdo pra você, moleque.