quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Subjetividades do Nariz... (ou da lingua?)

- Não gosto do gosto da tua lingua.
- Que isso?! Por que?
- Não sei, não gosto, e nem dos movimentos.
- Como assim?
- São desordenados, desconexos. Parece-me uma lingua em ataque epiléptico.
- Que absurdo! Por que sais comigo?
- Algo me agrada.
- Não o beijo?
- Não, nem o gosto da lingua.
- Do que gostas?
- Teu cabelo, teus seios, tua pele, os pelinhos dourados, a inteligência...
- Não gosto de jiló!
- O que tem a ver?
- Disseste que não gostas do gosto da minha lingua... É como jiló?
- Não, é gosto único, teu.
- Tão ruim?
- Não!
- Quero-te!
- Talvez te queira, mas ainda não sei.
- Depende da lingua mudar de gosto?
- Não, lingua não muda de gosto. O que muda, às vezes, com costume, é o paladar. Por hora está tudo com o gosto estranho.

Complicações

Meu coração ainda tremula diferente
quando te ouve...
Não, não chore, por favor,
assim você acaba comigo.

Eu, que fui incapaz de compartilhar a sua dor,
embora tenha querido tanto.

Sua voz ainda é música para os meus ouvidos.
Mas não sei como a minha soa nos seus...
e eles te fazem chorar.

Dói em mim a impotência,
dói em mim a sua dor
e a confluência dessas duas situações.

Seu cheiro é o que ainda carrego,
ainda que secretamente,
e é sua pele que quero sentir tocando a minha.

Queria ser mais tolerante à repetição,
à rendição,
à condição de abdicar
de coisas que me são caras,
mas você também me é cara,
muito cara.

De olhos fechados vejo seu sorriso
e se não me controlo
avanço no vento vazio
em busca do beijo,
do toque,
do calor do corpo,
dos seus quadris,
dos seus seios,
de você.

Eu queria ser outro,
sendo eu mesmo,
e queria você mesma,
sendo outra.
A questão é o que não sou!

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Portas Abertas

Eu me nego a fechar as portas
Ainda que esteja entrando poeira ou água
Ainda que eu esteja pensando besteira
Pois se fecho as portas com medo do ruim
Também as fecho para o que é bom
E quero portas abertas para os amigos
Para o bom trabalho
Para o bom amor e o bem amar
Quero portas abertas para a brisa que acaricia
E para os teus seios que chegam primeiro
Nesse teu caminhar
Eu quero portas abertas como no interior
Sem medo do homem que passa
Ou da velha do outro lado da rua
Ou da criança que possa quebrar o vaso
E destruir o arranjo
Quero portas abertas para o coração
E para a alma e para o espírito
Seja lá o que tudo isto signifique ou seja
Eu me nego a fechar as portas

Subjetividades do Nariz

Tem que haver um gosto, tem que haver
E esse gosto não dá pra explicar
Assim como não se explica o cheiro
E não se explica o tato
Nem o jeito de andar, nem o de deitar
O gostar é subjetivo
Nem sempre intuitivo, nem sempre lógico
Nossos instintos e subjetividades dominam
Nos guiam por onde acham dever
E vamos, nos pensando donos do nariz
Mas é o nariz que é nosso dono
E é no nariz que se concentram essas coisas
Essas subjetividades inexplicáveis
Esses tatos impalpáveis
Esses beijos estranhos ou bons
Esses desencontros tamanhos
Encontros mágicos
E tantos pensamentos um tanto tacanhos.

Às vezes tem osso...

Meu sobrinho devia ter uns 3 ou 4 anos de idade e já estava na escola, "estudando". Meu cunhado foi buscá-lo no fim do dia, colocou-o no banco de trás e ia pra casa. Meu sobrinho estava estranhamante calado e pensativo. Ele era um tagarelazinho extremamente inteligente, mas naquele dia estava pensativo. Meu cunhado olhava pelo retrovisor, enquanto dirigia pela Marginal, e via só aquela carinha de pensativo. Foi um bom trecho até que meu sobrinho, ainda com ar reflexivo e sério, rompeu o silêncio e disse:
- Sabe, pai? Meu "piu" às vezes tem osso, às vezes não tem osso!
Meu cunhado, claro, praticamente (ou literalmente, não sei) teve que encostar o carro para rir, mas rir muito. O pior é que a reflexão do meu sobrinho era séria, e ele detestava que ríssemos de alguma coisa que ele dissesse. Mas as crianças, nessa descoberta do mundo, dizem coisas divertidíssimas. Essa entrou pra história.

Atualmente ele tem 18 anos e já sabe bem administrar esse osso-não-osso. A história é motivo de risos até hoje, 14 anos depois, e ainda será por muito tempo.

Aquela carinha pensativa não só pensava como investigava de forma tátil a ocorrência surpreendente de um osso que ora aparecia, ora desaparecia. A gente aprende mais com as crianças do que ensina. É ilusão achar que é o contrário.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Luto de Passarinho

Ano é igual a passarinho, sempre voa,
Dizer "este ano voou", é redundância.
E neste vôo rápido percebo
Que ainda carrego meu traje de luto
E que não é só ornamento.
Estou de terno preto
E imerso em pranto
Sem deixar, que bom!, de ver horizontes.
E o passarinho-ano voou
Em acrobacias que foram lindas,
Verdadeiras delícias a degustar,
Mas tive de abrir mão, deixar as delícias.
Vesti-me de luto, e luto é traje especial
Que não sai quando se quer tirar,
Tem vontade própria:
Traje de luto sai quando se desfaz o tecido,
É preciso esperar que se desfaça
A trama que o forma,
Os sentimentos que o atam,
Laços fortes,
Lembranças belas,
Decisões difíceis,
Bem precioso demais pra substituir.
Leva-se tempo,
O tempo é que leva.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Cão Raivoso

A vida é um cão raivoso,
Babando com os dentes à mostra.

Este cão me encanta,
Me ameaça,
Me devora
Pedaço por pedaço,
A cada dia "invivido".

O passado carrega dor e o pouco de magia que houve.
O presente é a ameaça, o grito de pavor,
É a falta de rumo, de vontade,
É a ausência de criatividade, de rumo.

O futuro me mostra sombras, solidão e abandono.
O futuro, mais que o presente, é a ameaça concretizada:

Um futuro sem futuro,
Como o presente é sem presente
E o passado teria de ser refeito quase por completo.

E o cão me devora pedaço a pedaço
Com sua baba contaminada de raiva... e ódio.

E o cão me fita fixamente e me encanta
Com seu olhar onde a raiva parece ter cedido lugar à esperança.

A raiva está em mim!

Escrito em:
22/09/2009 (14:25h)

Agora Eu Era o Herói

Ela andava à minha frente em meio à multidão, interrompeu brevemente o passo, olhou para trás, fixou seus olhos nos meus de forma desconcertante e voltou a andar como quem não anda só, como quem me convidara para o encontro. Caminhei, pois, se não ao encontro, ao encalço... E olhávamos vitrines, roupas e perfumes num delicioso jogo de sedução. A aproximação deu-se naturalmente, aos poucos. O coração acelerou-se, as mãos esfriaram, o rosto deve ter ficado vermelho, mas ali, diante da loja de perfures, nos olhamos e, adultos, nos cumprimentamos como dois adolescentes enrubescidos e sorridentes.
Qual seu perfume predileto?, perguntei, e a conversa evoluiu tão rapidamente que voou. Tim tim, e já nos havíamos proposto um vinho, um brinde a nós, já devidamente nomeados, já devidamente introduzidos aos respectivos mundos: mini-currículos, listas de músicas prediletas, estilos, livros e filmes favoritos e o recitar de um verso de "João e Maria" saiu como consequência do meu cavalo que falava inglês. Saiu natural como enfrentar os batalhões, os alemães e seus canhões... e falávamos de rock e de Chico e de Tom. As mãos já se tocavam, as taças já não tinham dono e as bocas se fundiam e se confundiam num beijo quente. O resto, então, era só consequência inevitável do querer, de afinidades, do estar livre e querer amar. Onde estamos nós?

Escrito em:
01/12/2009 (23:47h)

Presença Incógnita

Em tua presença o silêncio fala
A eloquência cala
E o sobressalto se senta com tranquilidade
A conversa flui
O pensamento intui
Saber o que o sentimento quer

Em tua presença o tempo pede licença
E o relógio para
Os giros do mundo são poesia
E a vontade de morrer é hipocrisia
A vida flui
Na direção em que o desejo ordena

Em tua presença a vida não é sentença
O silêncio acalma
E o temor toma a forma da sabedoria
O desejo aflora
A alma transborda
E a carne goza de prazer

Escrito à 01:40h

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Começou

E começou, começou há pouco...
Mas alguma coisa nova de fato começa?
Fogos estourando, taças tilintando cheias de champagnes ou vinhos espumantes,
Ceias maravilhosas, música e amigos reunidos.
Ano novo... Vida nova?
Pode ser, mas não depende de todo o circo, que é bom e divertido,
Mas a gente ri no circo e fora dele... Chora, também!
E os palhaços também têm um misto de alegria e bizarrice na face e nos atos.
Nós somos os palhaços,
Nós somos os bichos enjaulados,
Nós somos os equilibristas na corda banda,
Giramos no globo da morte, pois um dia ela chega, mesmo. Não adianta!
Somos também domadores,
Atrações e espectadores, felizes ou atônitos,
Às vezes mais atônitos.
A vida toda é um circo, que tem sua diversão, mas também seu desconforto.
Nós somos todos mesclas de coisas, e nunca uma coisa só.
Não há só o bem, não há só o mal, especialmente separados:
São co-dependentes, complementos, talvez, de intrínsecos mistérios.
Um não existe sem o outro, penso eu,
Mas penso bem ou penso mal? E quem me julgará?
Para que a luz faça sentido, é preciso haver trevas a iluminar, sempre.
Para que exista um milagre, é preciso alguma dor, alguma coisa torta.
Que venha, e já veio, 2010...
Que venham muitos outros, muitos mais, sempre com saúde e paz.
Um bom ano novo para mim e para todos os amigos.
Não custa e nem fere desejar!