domingo, 21 de fevereiro de 2010

Hoje só (pré-ocupação)

Eu tenho uma estratégia para hoje
Não pensar em hoje
Somente deixar acontecer
Beber, comer, rir, beijar
Porque além de hoje
Que hoje é?
Amanhã é hoje de novo
E de novo hoje viverei
Tem sido meta
Meta de sobrevivência
Que assim não grite
"Socorro!" antes da hora
Que talvez nem chegue
Nem grite, nem queira o grito
Mas hoje não saberei
Num hoje qualquer
Porque não quebrarei
Minha estratégia
De não pensar em hoje
E de hoje viver
Sem me pré-ocupar 
Escrito em:
19/02/2010 (19:45h)

Era pra ser

O arranjo de flores
Caiu o arranjo de flores
Caíram as flores
Desfez-se o arranjo
De flores
Que caíram
Arranjo que se desfez
Em pétalas e as folhas
E espinhos e água
E a mesa se afogou
Cheia de arranjos
Glub glub glub
Era pra ser bonito
Era pra ser
O arranjo de flores
Escrito em:
15/02/2010 (18:21h)

Tarde passa tudo

A tarde passa, a tarde
Passa a tarde, passa
À tarde
Tudo passa, tudo
Ainda que tarde
Mas passa
É, tarde, passa tudo
Tudo que se passa
Tarde se passa
Escrito em:
15/02/2010 (18:16h)

Retardo inútil

Estou com um retardo no meu atraso
E isto de nada me adianta
Por mais que me cobre o não feito
É retardo, isto, está feito
Tenho que fazer o porvir
Isto sim me adianta
Ao invés de ver os cacos
Sempre tão fragmentados
Eu sou caco, às vezes
Às vezes sou caco, só
Mas é só parte, parcela, momento
Tique-taque, passatempo
Tim tim, segue vida
E dá-se o ritmo novo
Pois o coração bate
E se bate, é pra viver
Não no retardo desse atraso
Que mesmo de nada me adianta
Nem me concentrar nos fragmentos
De cacos perdidos, espalhados
Por sobre o chão de calendários
Que calendário é sempre
E o eterno reina infinito
Até o fim, meu objeto, meta
Escrito em:
29/01/2010 (09:02h)
Foto: http://blog.cancaonova.com/beatitudes/files/2008/03/cacos.jpg

Surpresa

Hoje passei o dia pensando em letras. Tanto e tanto que cheguei a pensar que não sairia palavra. E não é que me vieram até versos?

A pamonha

Lá vem o carro da pamonha
Lá vem o carro
Vai passar, lá vem
O carro vai passar, lá vem
Corra, pamonha!
Passou o carro, já foi
Pamonha, já foi.

Perdição

Às vezes a gente se perde
Entre pelos e pêlos
Preposições e cabelos
Condições, caminhos e emaranhados
Pelos pêlos que penteias
E pelos que não
Pelos seios que sei-os belos
Às vezes a gente se perde
Às vezes encontra a perdição
E então?

Lágrimas de cebola

As lágrimas escorrem
pelo rosto
que nem sequer chorou.
Estava a cortar
cebolas internas!
Às vezes no rosto
seco de choro
as lágrimas contidas
se negam a descer.
Cebolas em falta!
Tempero carente!
Ai, gente!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ah, guarda-me

Aguarda-me um momento
Ah, guarda-me
Por um momento ao menos
Guarda-me no teu coração
Ah, guarda, deixa de vigiar tanto
Deixa-nos viver, viver
Preciso repetir isto pra mim:
Vamos viver, viver
Já tenho um guarda em mim
Como todos têm
Na psicanálise tem nome pomposo
Superego é sua alcunha
Castrador filho da mãe
Castrador sem pai nem mãe
Mas, ah, aguarda-me um pouco
Guarda-me, guarda-nos um tempo
De entrega
De paixão
De amor
De doação
De respeito até à solidão
Ocasionalmente latente
Cortante e tangente
Incoerente, não?
Não! Só aparentemente
Ah, aguarda-me, bela guarda
Aguarda-me do meu lado
Ah, guarda-me no teu coração
Tira este uniforme
E se deita aqui comigo
Psiu, deixa o silêncio falar, agora

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O conto que canto

Canto como um conto
Que de encanto perde o ponto
Que de ranço perde a glória
Conto pra quem não tem memória
E perde a graça
E perde a grande farsa
Canto como quem canta fora
De sua nota, de seu tom
De sua vontade, seu batom
Que manchou minha roupa
E de vermelho ficamos
Na boca, na cara, na gola
Nada que não se faça coisa rara
Conto que não se degola
Gente que se ama e se atola
Como quem anda no brejo da vida
Como quem tem uma lida
Do dia a dia, da letra, dos livros
Conto o que me vem aos ouvidos
Mas só se segredo não for
Que não sou de dar com as línguas
A não ser em boca bonita
De mulher que me cativa dentro
Daí tento com intento
No conto, no canto, no meio
Da vida que ela faz parte
Do conto que ela canta e conta
Das vezes em que a vir tonta
Canto como um conto, mesmo
Canto agora acompanhado
Em solo ou em dueto, seja lá
Só não fale tão alto pra não atrapalhar
O conto que canto
Que me derramo em pranto