sábado, 10 de novembro de 2012

Querer quântico

Queria mudar de cidade
Mudar de continente mental
Voar mais alto
Voar mais rápido
E com mais precisão

Queria viajar pra outros cantos
Mudar de planeta-pensar
Pegar meu foguete
E andar além da velocidade da luz
Para que o tempo diminuísse

Queria abrir as portas novas
Desconhecidas, de universos paralelos
Escolher novos destinos
Apagar o que bem quisesse
E reescrever novos parágrafos

Queria poder existir só às vezes
E me desligar por conveniência
Deixando de lado a ferida
Fugindo deliberadamente da vida
E voltando só quando me aprouvesse

Filmes mudos

Ouvi atentamente os diálogos dos filmes mudos para tentar compreender as falas internas de quem via e compreender suas limitações. Olhei pra mim.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Ferida

Então o animal ferido se manteve na toca, encolhido, trêmulo e com dor, pensando-se ali protegido, pensando-se ali ausente de ameaças, mas sabia que não era assim, no fundo sabia, por isso a postura de descanso era também propícia ao ataque de defesa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Femme fatalle?

Menina, você não precisa fazer "cara de sexy" para ficar sexy! Não precisa fazer bicos, bocas, olhares e poses forçadas para se fazer de "femme fatalle" ou para se sentir uma... Aliás, quando você fica o mais natural e relaxada possível é quando te acho mais sexy. Quando você tenta ficar sexy, artificialmente, ou fica narrando assuntos que te "engrandessem" e te "promovem", supostamente, é quando fica menos atrativa. Os atrativos são, e têm que ser, naturais. Vai, relaxa, garota. O que é bom vem de dentro.

sábado, 3 de novembro de 2012

Hastear bandeiras

Levante suas bandeiras inúteis
Grite gritos que não são seus
É fácil aderir à imbecilidade
Dos que não se mostram ao mundo

Hastear bandeiras alheias
Como movimento contínuo
Denuncia uma fantasia gasta
Atrás da qual tantos se escondem

Levante a haste dos tecidos mortos
Que flamejam ao vento vão
Enquanto os seus gritos engole
Na covardia de assumir-se engasgado

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Dez crenças

Tenho dez crenças, todas muito elaboradas e semelhantes na origem, tendo todas elas me conduzido eficazmente a dez apontamentos.

Finandos

A morte é algo inevitáveel; é a única certeza de que temos na vida e também a maior e mais angustiante incerteza que vivemos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Velha lacuna

Ainda com o tempo de tantos anos decorridos, o menino procura sua mão e tenta alcançá-la em algum lugar que não sabe onde. Hoje faria 93 anos o homem, mas há 40 anos já se foi. A orfandade vem e fica, imposta como tudo que a vida impõe, jamais democrática. A orfandade faz o órfão e assim este permanece com uma lacuna incomensurável, uma ausência jamais preenchida, um amor interrompido antes que se possa até mesmo compreender a morte, o que é, por que é. E ninguém sabe, só sabe que é um findar inevitável, aleatório, com poucas lógicas. Um adeus, um desaparecer eterno. Teorias em contrário impostas na cabeça da criança de 6 anos fizeram mais estragos do que se pode imaginar. E hoje à noite talvez pudesse ser mais uma noite de simples comemoração com café fresco e pão de queijo feito em casa, bem ao estilo de um mineiro apreciar as presenças. Mas não vai ter festa nem celebração, vai haver apenas memória, saudade e lacuna, que é assim que sempre foi. A lacuna se fez, e do menino fez lacuna a vida, os desejos, as conquistas, a degradação. O adeus é algo profundamente destruidor, e corrói, e marca, e destrói nesta corrosão eterna e irreversível. O raciocínio lógico jamais foi capaz de dirimir os estragos, por mais que se tenha tentado, por mais que se continue tentando. O menino continua só, desamparado, pedindo socorro sem que se ouça sua voz, seus gritos, sem que se vejam suas lágrimas, sem que o menino se descubra homem, pois permanece criança solitária com as pequenas mãos estendidas em espera das mãos do pai, que já não pode mais ouvir porque já não mais é nem pai nem nada, deixou de ser, foi a sete palmos. Ainda o menino vê o homem, o herói, desabando diante de si. Ainda o menino se vê, simultaneamente, desabando e se vê desabado, destruído. Ainda o menino se vê menino e não homem, a despeito do tamanho, da idade, do que for.

Meio vazio

Às vezes, quanto mais cheio de pessoas e agitação, multidão carente de mostrar onde está, onde esteve, ostentando colocações, o cheio se assemelha tanto com o desértico.

domingo, 28 de outubro de 2012

Cataratas

Foto: Jorge Alfar (site Olhares.com)
Ela tenta sorrir, tenta ver algum brilho na vida com os olhos opacos de catarata, vendo tudo amarelado, acinzentado, desanimado como fotonovelas antigas, sem trilha sonora. O choro, inevitável e contido, escorre timidamente e ela se pergunta por que sente tanta angústia, por que quer chorar, por que está assim triste. É que o fim se aproxima, ainda que vagarosamente, e é difícil olhar o fim da linha do trem quando não se quer desembarcar, quando nem há estação final, mas tão somente um final incerto e duvidoso. Ela tenta sorrir, sai amarelo como a catarata que lhe encobre os olhos; ela tenta brincar, mas entremeia algum sorriso a muitos choros e queixas; ela tenta encontrar um sentido que talvez não exista se não conseguirmos conferir algum sentido à existência, e não é tarefa fácil. Viveu, estudou o pouco que pôde, trabalhou exemplarmente, casou-se, teve filhos e seguiu, mas sempre antevendo os sintomas da catarata da alma, agora também nos olhos. Cataratas assim fazem desaguar águas, rios e rios de lágrimas que podem escorrer pra dentro ou pra fora, mas deságuam. Não são cataratas belas como as da natureza, as de águas doces. São cataratas de angústias, dúvidas, medos, ansiedades e inquietudes doídas. Ela segue por falta de opção, a mesma falta de opção que acomete todos os seres vivos animados, ainda que desanimados, mas não inanimados. Ela olha o chão como quem escava a terra com o olhar, alcançando o infinito. Ela busca ela mesma e busca o que a vida lhe deu, e pouco encontra. Ainda assim há o apego à vida e o medo do sofrimento já visto na rata final de outros próximos, e sabe que a idade lhe impõe isto. Talvez, como eu, ela deseje um final em sono tranquilo e despercebido, sem prolongamentos desnecessários. Que assim seja, caso haja alguém a comandar alguma coisa. Ela também duvida disto. Todo mundo duvida, e às vezes os que mais afirmam certezas assim são os que mais duvidam, mas jamais dão o braço a torcer pois precisam se agarrar a qualquer tronco podre que se encontre boiando.