segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Rebaixados

Sacanagem isso que fizeram com Plutão. Aprendi desde pequeno que o sistema solar tinha 9 planetas, nesta ordem: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão.

Ah, e eu nasci escorpiano, num 24 de Outubro, data que também se comemora Goiânia, Manaus e algo a ver com Lisboa (vi num texto do Saramago, em O Caderno - blog - mas preciso ver exatamente o que é). E escorpianos são regidos pelo planeta (agora não mais) Plutão.

E agora, Plutão? Já que você foi destituído do posto de planeta, vai continuar nos regendo, a nós escorpianos, ou vai deixar tudo nas mãos de Júpiter, que dividia com você as tarefas?

Falando sério, agora. Acho tão engraçado isso de um monte de "gente importante" (físicos, astrofísicos, astrônomos, imprensa mundial etc.) se reunir pra decidir se Plutão iria continuar a ser categorizado como planeta ou não. Foi rebaixado! Enquanto isso, na Terra, um monte de gente, embora categorizada como ser humano, não merece a milésima parte da atenção que dão às viagens espaciais (que encantam, sim) e não recebem nem mesmo mérito algum de cidadania. São eternos rebaixados...

Os telescópios se voltam pro alto, exclusivamente, ou, quando muito, pros próprios umbigos. Tudo bem, Plutão, você não é mais planeta, saiu da minha lista, mas torça daí pra que as pessoas possam pensar menos no crescimento econômico "mundial" e mais na distribuição do que já se tem.

Que seres humanos sejam ao menos astros, como você, Plutão, ainda que não planeta, mas merecedor de atenção, rebaixado mas não tanto. Todos somos merecedores de atenção, todos somos, todos são.
OBS:
Agradecimento mais que especial à Shirlei Romano, do blog Minutos Inconstantes, pois foi graças a um post dela que eu criei este post aqui. Primeiro ele foi comentário, mas daí seguiu o caminho inverso de Plutão. Ao invés de ser rebaixado foi elevado de categoria.
Acho que isto é a ilusão de estar fazendo justiça com as próprias mãos. Triste ilusão, triste justiça, normalmente injusta.
Shirlei, obrigado pela inspiração. Shine on you...

domingo, 14 de fevereiro de 2010

João e o pé de feijão...

João fez um ano... João e seu pé de feijão. Como é estranho pensar nisso: primeiro ano de vida! Parece, em relação à vida nossa, minha, sua, de todos “adultos”, algo tão distante e tão próximo. Mas, se próximo, tão inalcançável. Que coisa mais iniciante e o quão iniciantes nos mantemos todos nós sempre! Todos os anos são primeiros, até os últimos são. A vida passa como um relâmpago, com luz e barulho, com encantamento e susto, com graça e tristeza. Das primeiras caretas às últimas rugas somos a mesma pessoa e nunca a mesma pessoa. João hoje será João amanhã, mas também não será mais o mesmo João de hoje, mas outro João. Terá aprendido algo mais, crescido algo mais, esquecido algo mais a relembrar, ou não. Daí vamos, e vai João, pela vida afora ou adentro, nem sei bem qual a melhor definição, crescendo, subindo no pé de feijão, tentando alcançar o que pensamos ser o gigante, lá acima da núvem, acreditando na mágica da vida, e de alguma forma (ou diversas?) ela é mesmo mágica. Algum dia deixamos, de fato, isto de lado? Tenho sérias dúvidas.
O olhar de uma criança é algo tão bonito, acolhedor, acalentador, cheio de interrogações, surpresas, esperanças e alegrias simples. Normalmente não há uma ruptura abrupta entre o olhar da criança para o olhar do adulto. A gradatividade das coisas é tão serena na maioria dos casos que nem percebemos que crescemos. Nos damos conta disso aos poucos. São coisas do tempo. E o que o tempo é? João vai fazendo bichinhos e biquinhos e subindo em seu pé de feijão. Olha pros outros como se fossem gigantes. Logo logo ele será o gigante e o pé de feijão, já não mágico, será pequenininho como são os pés de feijão, mesmo. E os gigantes ficarãõ na lembrança e no desejo de ser grande, maior, sempre maior. Às vezes nossa vontade de nos suplantar nos traz esse desejo de ser mais, de ser maior, de ser melhor. Tudo válido, se com a pureza de João.
João agora engatinha, eu também já fui João, embora disso me lembre pouco, mas com frequência. Todos já fomos ou João ou Joana. Lembro de mim pequeno e lembro de quando houve em mim a ruptura do olhar de criança que vê a mágica para a criança que vê a vida. Essa mudança ocorre invariavelmente, as rupturas são normalmente suaves, gradativas. Papai deixa de ser herói, mamãe deixa de ser proteção máxima e os "joões" deixam os braços paternos e maternos e saem cambaleando pela vida, começa em passos trôpegos. Aos poucos os passos ficam mais firmes, mas o cambalear é humano, o tropeçar é humano, assim como o engatinhar, o gungunar, o babar. Nos já nascemos humanos, João!
João fez um ano, vamos fazendo os nossos anos que são sempre os primeiros, pois todos os anos são primeiros, e até os últimos são.

OBS:
Parabéns ao João por seu primeiro primeiro ano de tantos primeiros anos que virão. Felicidades.
Obrigado a Gê pela idéia que eu roubei da lembrança dela do pé de feijão.
Obrigado a Fernanda pela foto que roubei do blog dela e que eu espero que ela não queira que eu tire, porque ele está muito fofo fazendo bichinho.
Fê, deixa a foto do João aí, deixa?

Teorias

Reflexões profundas às vezes requerem uma certa dose de superficialidade.
Escrito em:
09/07/2007 (00:56h)

O dia às vezes parece uma sequência monótona de horas, e uma sequência monótona de horas parece, às vezes, um dia perdido inteiro.
Escrito em:
11/07/2007 (11:27h)

Conviver com pessoas profundas é bom, gosto muito, mas pessoas profundas demais, o tempo todo profundas, nos sufoca, nos afoga... Um pouco de superficialidade é bom pra se tomar ar.
Escrito em:
03/08/2007 (16:58h)

Hoje uma amiga me disse "Eu odeio gente que fica rotulando as pessoas pelos seus gestos ou costumes". O que ela parece não ter notado é que ela tinha acabado de rotular estas pessoas de "Rotuladores" e era, portanto, ao menos em certo ponto, também igual a eles, aos rotuladores. O ser humano é mesmo complicado, e isto é rótulo geral, admitindo apenas gradações.
Escrito em:
17/09/2007 (03:22h)

Não sei por quê tememos tanto a morte, se é a vida que nos consome, que nos desagrada e nos humilha fazendo ares de bondosa. A morte é só o ponto final, o ponto de alívio, o descanso.
Escrito em:
17/09/2007 (03:27h)

A mulher é o ser mais almejado e adorado por um homem, mas é também o ser que ele mais teme, sua grande esfinge: "Decifra-me, ou não me comes mais!".
Escrito em:
17/09/2007 (03:29h)

Amar é a muleta mais necessária e indispensável ao ser humano, em especial àqueles que dizem não precisar de muletas. Amar é uma necessidade, uma consequência, uma capacidade, e não simplesmente uma escolha.
Escrito em:
17/09/2007 (12:32h)

O ódio também é necessário, inevitável. Ele é a face que fica voltada para baixo para o amor poder se mostrar. Ódio é coroa, amor é cara. Que a cara humana prevaleça sobre a coroa do poder e da disputa. Esta é a grande luta interna, a grande luta universal. É deus e o demônio dentro de cada um. Escolhemos a quem alimentar dia a dia.
Escrito em:
17/09/2007 (12:37h) e hoje.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Alinhavando

Eu tento não me conter
nos contos e nos versos,
mas neles estou eu,
embora não seja eu.

Eu tento planejar,
eu tento alinhavar,
mas nunca peguei em linha, quase.
Sai tudo torto demais...
Pelo menos sai!

Eu tento me contar
nos contos e nos versos,
pois neles estou eu,
embora não seja eu.

Eu tento não planejar mais,
não alinhavar mais,
nunca pegar em linha.
Sai tudo reto demais...
Pelo menos sai!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Insônia (enquanto o sono não vem)

Enquanto o sono não vem
Mudo de canal, troco o CD, escolho um livro,
Ando pela casa, assalto a geladeira,
Penso um monte de besteiras
Enquanto o sono não vem

Salto de paraquedas
De cima em baixo, tantas idéias
E o sono, na verdade, já chegou.
Me falta a queda, me falta a entrega
Deixar o sono tomar conta.

Como um doce, como um queijo,
Engulo um valium apressado e azul,
Ouço discos, velhas músicas
Enquanto o sono não vem... de vez...
Enquanto o sono não... zzzzzzzzz...

Escrito em:
22/07/2006 (02:03h)

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Entendimento do céu

Céu azul não entende muito das coisas.
Em certos momentos, em certas vivências,
Em certos instantes de tantas carências
Só mesmo a tempestade parece companheira,
Compreensiva, profunda,
Pois entende de inundação,
Entende de vastidão, do que for vasto
E do que foi vasto e devastado.
Cores vivas humilham a dor, nos acabam...
Céu azul não pensa bem,
Céu nublado é mais reflexivo.
Em certas horas só mesmo uma boa tempestade
Pra nos entender.
Céu azul não entende muito, mesmo.
Tempestades são lindas!
Não entendo quem disso não entenda.
São lindas, mas não por si só.
Também o céu azul, raso, com pouca água,
Não é belo por si só,
E ainda se ostenta tanto sem se camuflar!
Abuso de autoridade de ausência
De águas, de lágrimas, de simbolismo cinza.
A tempestade embeleza o céu azul
E o aprofunda, deixando lá nuvens
Esparsas, pintando o céu azul
Como se neurônios do firmamento
Fazendo e desfazendo conexões
E os raios provenientes das nuvens
Em nada diferem dos que nos resulta o pensar.
A riqueza das tempestades é clara
Em meio à escuridão das nuvens, do dia, da hora.
Tempestade é compreensiva,
Céu azul é aquele suspiro de quem sobreviveu.
Daí ele se faz menos ostensivo,
Gratos ficamos alguns pela tempestade
Que lava, lavou, levou, limpou e abriu o céu.
Céu azul não entende muito das coisas,
Mas só vivencia mesmo uma tempestade
Quem depois sabe admirar o céu
Sem esperar compreensão,
Mas compreendendo o raso, o seco, o pós.

Eu insisto... desvio de conduta

Eu insisto em tirar
as pessoas do bom caminho,
convencer-lhes a ler mais,
mas de forma não literal, que é bitolação,
perda de tempo, até loucura.
A ler, pensar, ouvir, refletir,
olhar para os lados e observar o lido, o vivido.
Eu insisto em fazer
as pessoas admitirem
um tanto de insanidade saudável,
uma criancice a ser vivida,
a existência de medos e fraquezas,
e de que sejam fortes em admitir,
em encarar os fantasmas
e assoprá-los
ainda que só para ver seus lençóis
balançando ao vento.
Eu insisto em que as pessoas chorem,
pois não há quem
não carregue um choro
escondido,
e que também riam
do que as faz chorar, às vezes.
São temperos do ser humano.
Eu insisto nessa culinária louca,
insana e saudável,
insisto na insistência da salubridade,
na conservação de uma lucidez maior,
e maior dentro do possível, só.
Eu insisto que as pessoas se abracem,
que se dispam de máscaras de coragens impostas,
que se vistam de palhaços,
com risos, lágrimas e bizarrices sãs.
Eu insisto em insistir na salvação,
especialmente na minha,
e na dos outros, então,
pois que são parte da minha vida,
do mundo, que é meu e é de todos.
Daí vou eu destruindo
os ditos bons caminhos do comportamento,
da religiosidade,
da fé e dos bons costumes.
Eu insisto, sempre vou insistir.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dama de vermelho

A dama de vermelho que eu quero é você,
independentemente da cor da roupa que usar
ou da que eu puder despir.
É você que quero na cama,
ao lado da taça de vinho tinto seco,
da tábua de queijos.
Tudo vai virar acessório,
porque é você o centro do alvo
que defini querer,
do alvo que, antes de alvo,
me capturou pela gargalhada,
pelo olhar de soslaio, a princípio,
e mais direto, depois.
A dama de vermelho que eu quero é só você,
e pode colocar a cor que quiser,
pois faremos a própria ópera,
a própria epopéia,
brasileira, africana ou européia.
A dama de vermelho eu quero nua e quero fazendo sexo
da cor que for, quando e sempre que der.
Hmmmmmmmmmmmmmmmmmmm...

Paisagens

É enquanto ando que olho a paisagem
A paisagem não passa por mim
Sou eu que passo por ela
E só assim posso admirá-la
Usufruir da beleza das matas, das árvores,
Dos animais, do céu, dos horizontes
Se fico imóvel, o que terei pra admirar?
Parados, paramos o mundo
Porque o movimento que conta é o relativo
Embora a Terra não pare de girar
Devemos ajudá-la
É viver, é ver, é fazer, é andar
Se fico imóvel, a paisagem para
Fica repetitiva, ainda que cuide bem
Do jardim, de quem olha por mim
Devo andar para olhar a paisagem
De mãos dadas com quem gosto, andar
Pra ver novas coisas belas
Sem descuidar do meu próprio jardim

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O fantasma

Os fatos aqui narrados ocorreram em uma fazenda nos arredores da cidade de São Gotardo, interior do estado de Minas Gerais, nos idos dos anos 30 do século passado. Nesta fazenda morava um bravo rapaz, que devia então ter menos de 18 anos, pois foi aos 18 que teve a oportunidade de começar a estudar. Todos os anos, numa época específica, a região era atormentada pela aparição de um fantasma terrível e que não era desses caprichosos que só aparecem para alguns, mas para todos, inclusive aos animais. O fantasma só era visto ao longe, movendo-se em noites de lua, assintosamente visível aos crédulos e aos incrédulos. De nada adiantava as rezas e orações feitos pelos mais penitentes e fervorosos moradores e peões das fazendas da região. Era fantasma famoso e, embora sem nome, já renomado. Cavalos, gatos e cachorros se negavam a passar por onde o fantasma ficava. Havia um lugar predileto do fantasma e, pelo menos por aquelas paragens, era sempre lá que ele ficava. E não adiantava: cavalos relichavam e davam coices, cachorros ladravam, gatos se esquivavam. Dos pássaros não sei dizer se havia boa convivência ou não. No escuro, após o por do sol, os pássaros são discretos e nos fogem à percepção.

Insistentemente lá estava ele, todas as noites a mover-se no mesmo ponto, a provocar e amedrontar a todos. Era assunto nas rodas de conversa, no tecer prosa de pessoas reunidas nos momentos de descanso. Logo de manhã, quando, como de costume, acordavam os peões ao trabalho, lá estava o fantasma. Era preciso que esperassem que se fosse antes de cruzar aquele caminho, para quem lá tinha de passar. Ninguém o enfrentava. Fantasma que aparece pra todo mundo é abusado demais, nem dá pra ser negado ou tido por alucinação, nem mesmo coletiva, uma vez que animais não seguem alucinações coletivas. Estavam lá os cavalos e outros animais também a provar a todos a veracidade dos fantasmas. E ele gostava das noites de lua clara. Se cheia, tanto melhor, se divertia mais às custas dos moradores da roça.

O bravo rapaz a que me referi era intrigado com o fantasma e, como viria a demonstrar sua vida posterior, embora curta, era dado a querer se aprofundar em conhecimentos. Um fantasma com quem não estivera era um fantasma a conhecer. Daí, contrariando as advertências de todos os moradores que horrorizados pediam-lhe que não fizesse aquilo, ele, numa noite, decidiu pegar um cavalo e ir ter com o fantasma. Pegou o cavalo, cuidadosamente lhe pôs sela, estribos, freios e essas coisas de que os peões da roça conhecem e nós, os ditos civilizados, desconhecemos ou sabemos pouco. Era bom cavalo, há de se presumir, e de confiança, pois para tal tarefa não seria escolhido um cavalinho qualquer desses que se assustam até se a égua fosse maior um pouco. Não! Era cavalo bravo, cavalo dos bons. Tudo certo, montou o cavalo e saiu a galope em direção ao fantasma, mas não havia pensado que também o valente cavalo, companheiro do dia de trabalho, fosse dar o vexame de se amedrontar, mas foi assim que sucedeu. O cavalo, vendo o fantasma, empinou, relinchou, tentou voltar, mas o rapaz não desistiu. Metia-lhe as esporas, mas de nada adiantava: o cavalo se negava a ir adiante e era patente o desespero do animal. Era uma imagem aterrorizante a do fantasma a se mover assintosamente lá, sempre lá por aquela passagem. O rapaz desceu do cavalo, pegou-lhe pelo arreio e começou a caminhar à pé. O cavalo mantinha-se em pânico, relinchando e tentando sair dali, não fosse a mão firme que o segurava pelo freio e ainda o forçava a ir adiante.

Foram chegando, rapaz e cavalo e mais ninguém, e o fantasma no auge de seu cinismo mantinha-se no mesmo ponto a se mover. Não se dava ao luxo de alguns fantasmas dos quai ouvimos falar que, ao serem observados mais de perto, somem, fogem, evaporam-se. Este, não, manteve-se lá naquela espécie de dança provocativa, aquele movimentar-se estranho sem sair do lugar, como se bandeira flamejante. Fixo, mas móvel. O rapaz foi se aproximando e se aproximando, tomado de medo, mas também de decisão, pois sabem os sábios que coragem não é ausência de medo, mas a capacidade de enfrentá-lo. Se não houvesse medo, a coragem não seria coragem. O caminho parecia interminavelmente longo, distante e desafiador. O suor frio, o cavalo cada vez mais em pavor, cada vez mais em recusa e exigindo mais das mãos do jovem da roça que o mantinha firmemente seguro nas mãos. Nem era louco de chegar lá sozinho, pois houvesse o que houvesse, mesmo o cavalo não tendo querido lá estar, lhe serviria de montada para voltar a galope, em fuga. E o caminho foi chegando ao fim, o fantasma se agigantando pela proximidade, pelo medo, pela incidência da luz da lua. Não recuou, o rapaz, enquanto o cavalo dava mostras de estar prestes a desmoronar ali mesmo de medo.

Chegou, enfim, diante do fantasma. Agora não dava mais para fugir. Estavam frente a frente, cara a cara. Procurou o olho do fantasma para encará-lo nos olhos, mas não tinha olhos. Era fantasma disforme. Quando já lá, bem próximo, o cavalo parecia alheio, passara-lhe o pavor. O rapaz encarou o fantasma bem de perto, quase grudando nariz com nariz, por modo de dizer, uma vez que o fantasma não tinha nem olho e nem nariz. Bem perto, quase a tocar o fantasma, este se desfez. Eram então centenas de larvas que, à luz da lua, brilhavam num belo tom e que se moviam para cima e para baixo no tronco de uma enorme árvore. Ali o fantasma ruiu. O fantasma estava morto e reduzido a larvas, simples mandruvás que, depois de passada aquela época, aquele ciclo de todos os anos, virava centenas de borboletas a colorir os campos antes aterrorizados pelo fantasmas. O fantasma morreu, foi desmascarado. Ninguém antes havia desmascarado aquele fantasma, que por anos aterrorizou os moradores daquelas fazendas nos arredores de São Gotardo, Minas Gerais.

Voltou à sede e contou aos outros o sucedido. Estava terminado o terror. Eram larvas, mandruvás, nada além disso. Por isso a lua clara era necessária para que ele se fizesse ver e assintosamente ensaiasse durante toda a noite clara sua dança ameaçadora.

O caçador de fantasmas era meu pai, que morou mesmo na roça e só começou a estudar aos 18 anos de idade. Viria a estudar odontologia, embora o sonho fosse medicina e tivesse um enorme encantamento por construções. Estudou também contabilidade. Clinicou por dois anos como cirurgião dentista mas acabou por seguir carreira pública no INPS no que seria hoje auditor fiscal, mas na época eram outros os nomes, as siglas. Foi funcionário exemplar, casou-se tarde, teve dois filhos e faleceu precocemente aos 53 anos de idade, bem diante de mim, então aos 6, por parada cardíaca subita, consequência de doença de chagas, provavelmente adquirida nos tempos de roça. Além de cirurgião dentista, contabilista e fiscal do INPS, foi também caçador de fantasmas e é esta a atividade dele que eu mais gosto de relatar. Hoje o fantasma é morto e ele é uma lembrança saudosa: meu caçador de fantasmas se foi e agora eu tento encarar os meus, sem cavalo a me acompanhar. Mas a lição ficou: encarar os fantasmas os desmonta. Temos de conhecê-los, nomeá-los, desmontá-los, e não há outro meio. Nem sempre, quase nunca ou nunca, é fácil, mas necessário.

São Gotardo seguiu sua pacata rotina, mas os peões e moradores ficaram mais em paz. O fantasma havia morrido, sido desmascarado, diluído em belas larvas, belos mandruvás que refletiam a luz da lua e se amontoavam como se fossem um corpo só. Agora todos voaram... Tanto os fantasmas como os belos seres um dia se vão.