sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

É festa

Hoje era para ter festa
Era dia pra não sair de casa
A não ser pra ir ao teu apartamento
E festejar contigo
E festejar em família
Que sempre se unia ao teu redor
Hoje era pra ter festa
Mas hoje não vai ter quibes e esfihas
Nem pães sírios
E copos de refrigerantes
Todos mesclados a vozes felizes
Circulando pelo teu apartamento
Te abraçando
Te cumprimentando
Te festejando
Hoje é dia de lembrar
E todo mundo está se lembrando
Do teu jeito forte
Da tua presença doce, serena
Dos teus quitutes
E da delícia da tua presença
Há lágrimas
Não há como não haver
Pois houve uma despedida
Pois não te temos aqui plena
Mas na plenitude do amor
Continuas viva
E é sim dia de festa
Das que festejam tua existência
Tua vida, teu legado
E a gratidão da saudade
Que vem bem temperada
Com sal, cebola, hortelã, alho
E um monte de amor
E calor humano
Desse enorme ser humano
Que fostes, que és
Viva, que ainda estás
Dentro de todos nossos corações
Nas nossas lembranças
Viva Elza!

O bom risco

Nos riscos do amor, um deles
é exatamente o de dar certo,
e é exatamente por este risco
que devemos correr todos os demais.
A inércia é protetora dos covardes,
e já fui um em muitas ocasiões.
Mas a covardia e a inércia
trazem a "segurança" da certeza,
só que é a certeza
de nada a dar errado
é também de nada a dar certo,
pois nada tentado, nada vivido.
Este é, sim, o grande risco
a não correr: o não viver, o não amar.
Nem a tentação, tão boa, é tentada,
nem arriscada em meio à inércia.
Não correr riscos é mesmo não viver
E sucumbir ao poder da inércia, que mata.
Os riscos do amor são todos perigosos,
de perigo íntimo,
de se expor,
e não há como amar sem se expor,
sem ser ao menos um pouquinho ridículo,
divertidamente ridículo,
de conseguir rir de coisas bobas,
de se divertir com o pouco
e descobrir que o pouco é muito.
É preciso correr esses riscos
de julgamento, de rejeição,
mas de amor e aceitação, tesão.
É preciso superar os traumas anteriores,
jogá-los numa latinha de lixo
ou num arquivo morto qualquer.
É preciso ter esse arquivo,
estudá-lo e superá-lo.
Só assim se vive de verdade,
ao menos se tenta, tentado,
o dito atentado ao pudor.
Tentar, tentado, tentador...
amar é tentar, amar é ser tentado,
é não ter medo do risco de dar certo,
e às vezes nos acostumamos
tanto ao dar errado
que o dar certo assusta.
Não! Atentados ao tentar são boicotes à vida
e nos riscos do amor, mesmo,
um deles é o de dar certo,
e é exatamente por este risco
que devemos correr todos os demais,
sem pudor, sem medo da dor,
rumo ao prazer
e sem vergonha alguma.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Uma ode ao viver

Eu não quero pés atrás
Eu quero pés se entrelaçando
Almas e corpos se tocando
Eu quero olhos nos olhos
E medos compartilhados
Medos enfrentados
Fantasmas encarados
Neuroses conversadas
Enquanto os pés se tocam
Os pés, o corpo e tudo mais
Pernas confundidas
Braços procurados,
Dedos entrelaçados, porque sim.

Uma ode... Tudo de novo outra vez

Constrói-se com todo o cuidado, cultiva-se, aduba-se a horta
De repente um vento forte, inesperado,
Um vento do norte, sei lá donde,
Bate forte, arromba portas e janelas, aniquila o cuidado
Mata a horta, deixa tudo em destroços
Foi um terremoto, não é um Haiti,
Foi um monte de dor, visível
Sonhos voando por todos os lados, inescrupulosamente,
Vidas soterradas, esperanças sufocadas,
Um vento do sul, sei lá donde,
Bate cru, bate derrubando até mesmo as estruturas
Não restam plantas no quintal
O céu não mostra seu azul
As taças se despedaçaram
As núvens que pairam são cinzentas, de assombro
O rosto que se mostra nas formas amorfas
Formam rostos sádicos, de vida
São destroços de construções, de desejos, de sonhos
Desistências impostas, surpreendentes
Gente, gente, quanta querência!
Querer bem é algo perigoso? Não! Vale a pena viver
Ainda que passando pelo tormento
Ainda que absurdamente atormentado
Bate um vento do leste, sei lá donde,
Bate forte e não deixa gente de pé, não com firmeza
E amanhã? E depois de amanhã?
Tudo parece terminado, mas é ciclo
No circo do qual fazemos parte, bom e divertido,
Há espaço pra dor, sim há
Mas é suportável, ainda que pareça não
Bate um vento oeste, sei lá donde
Não deixa de pé nenhum cipreste, nenhuma rosa
A mais bela despetalou-se
Ao vento forte, ao abalo sísmico
Mas a rosa vai sobreviver, vai sim,
Que é rosa forte e bela
A raiz é firme, apesar do abalo, da dor, do despedaçar
A rosa chora, e sinto te dizer, Cartola,
As rosas falam e falam bonito
Escrevem, cativam, cultivam, dão o melhor de sí
São o melhor em si, mas perecem
Só que não é por fim,
É por recomeçar, frágil, mas forte, como é a rosa
Floresce de novo
É da natureza da rosa
É mais forte que o abalo e a destruição
E reina em meio aos escombros
E reconstrói tudo de novo... tudo de novo outra vez
Não há só uma taça, sempra há mais

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Olhar traiçoeiro

Preste mais atenção ao seu olhar,
mais que ao olhado.
Acho que é por ai a solução.
A gente olha e idealiza,
e cria expectativas,
ainda quando tenta se tolher.
Criar expectativas é criação das antigas,
de pouco depois
da expulsão do paraíso por deus.
Era a expectativa de que deus, justo,
chamaria de volta,
a expectativa de que a terra a arar
fosse sempre próspera,
o gado sempre gordo,
a pessoa amada sempre perfeita.
Daí a gente vai construindo
castelos de areia,
constrói junto a esperança
de um castelo inabalável,
mas a onda vem,
o castelo vai,
se não ao todo, em partes.
E quando a gente olha,
a gente vê o que olha, sim,
mas vê sempre através da lente
dos nossos olhos,
da lente dos nossos sentimentos.
Coração é óculos...
coração de ósculos,
carente de amplexos.
É bom prestar atenção ao seu olhar,
falo por mim, em especial,
mais que ao olhado.
O olho engana, mancomunado com a história
que a gente carrega,
associado com o passado recente
e o passado passado,
que não passou merda nenhuma.
Ficou, como lembrança, como trauma,
como marca feita a brasa,
com cicatriz de quem sobrevive,
mas a cicatriz é visível.
Preste, sim, atenção ao olhado,
mas lembre-se do engano que te faz passar
as lentes que te envolvem,
sempre te envolvem,
sempre nos envolvem
e muitas vezes distorcem.
Cuidado com as miragens.
Idealizar é criar miragens,
é tentar paragens onde não se para,
ou seguir onde se deveria parar.

Rotulação

Eu já fui tudo o que sempre quiseram
Eu já fui tudo o que nunca quiseram
Eu já fui anjo, já fui demônio
Já fui polido e arrotei no fim do banquete
Já soltei pum em público e assobiei
Já falei obrigado na hora certa, mas também já vacilei
Já salvei, já derrubei
Já me ergui e me espatifei
Já me rotularam com rótulos enormes
Já arranquei montes deles
Já colocaram de volta vários e outros novos
Já descobri que a vida é assim
Já tentei fazê-la diferente
Já desisti, porque é assim
Já deixei que colem rótulos e tentem entender
Já entendi que nunca se entende
Já que o que se entende se perde sem ser.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Medos fracos

Meu medo é corajoso,
não tem medo de ser medo,
e assume-se medo,
assume-se frágil,
assume-se humanamente
medonho
e medroso.
Minha fraqueza é forte,
pois busca sempre o rumo norte
a nortear seus quilograma-força.
Meu medo é o medo de quem pensa
e, por pensar,
conclui e,
por concluir,
concorda
e discorda
e tem dúvidas das próprias certezas
incertas e oscilantes,
mas nem todas.
Não tem dúvida do medo,
mas não sabe definir o perigo.
Não tem dúvida da fraqueza,
e sabe que a força
não está em vencê-la,
mas em render-se à existência dela,
assim como sabe que a coragem
não é a ausência do medo,
mas a capacidade
de encará-lo de frente e dizer:
Medo, qual o perigo?
E, ainda que com medo,
viver o que se tem pra ser vivido.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O que são

Meus escritos são literários, não literais. Se forem literalmente lidos, nada acrescentarão. São catarse, são metáfora, são histórias contadas. Quem lê o lido como literal corre o risco de elegê-lo, como quem elege um "livro sagrado", como algo cheio de distorções que obedecerão aos olhos de quem lê, às neuras de quem vê, aos pensamentos de quem pensa saber o que lê. E não tem nada tão complexo nem tão confessionalmente injurioso. É leitura, é catarse. "Enjoy the music", e só!

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Já fui astronauta de sucesso

Não havia o que temer, o mundo era seguro, totalmente seguro como nunca mais voltou a ser. Acordou ele da noite tranquila de sono, arrumou-se e, como eram férias, preparou-se para o dia de aventuras mundiais e universais a serem vividas no quintal de casa. Primos e amigos viriam. Neste dia, um primo. Imersos na despensa, feita laboratório da Nasa, criaram suas vestimentas de materiais especiais para as tarefas urgentes e importantes que os aguardavam: deveriam explorar um planeta inóspito e desconhedico, de pouca gravidade. Materiais separados, todos de alta tecnologia: papelão de caixa, presilhas de roupa, durex e esparadrapo, talvez também um grampeador antigo. Canetinhas ajudariam na criação de botões, visores por demais importantes pelos detalhes que mostravam e no design puro e simples em si.
Tomaram a nave, decolaram mesmo sem saber da existência de Cabo Canaveral, mas decolaram dali mesmo. Se não era Nasa, iam assim mesmo espaço afora. E, ah, que vista bela tinham da janela da nave-despença: estrelas, planetas, cometas, outras naves, até, tudo lindo demais. Viajaram bastante e distante, mas enfim chegaram e era hora de se vestirem com os trajes de astronautas. Assim o fizeram, pois dever há de ser cumprido à risca. Era hora de descer. A aterrisagem havia sido perfeita, sem trancos nem barrancos. O nível de oxigênio estava ok.
Desceram cautelosos, fingindo até mesmo um temor que não tinham. Foram, então, a explorar o planeta inóspito localizado... onde mesmo? Nem eles sabiam. Exploraram o planeta e tudo era mágico. O planeta era lindo, como o quintal da casa, ainda que fosse planeta inóspito. Veículo de locomoção era uma Monark Dobramatik azul, linda, veículo de última geração nessas explorações. Um "guiava" o outro ia na garupa, digo, na cabine complementar. No planeta havia vasta flora: jabuticabeira, mangueira, pé de figo, belas roseiras, duas goiabeiras, inúmeras flores e plantas, matinhos e ervas daninhas, que não danavam nada. Que belo planeta, que bela expedição. Os trajes funcionaram com pefeição inigualável a quaisquer outros e a quaisquer outras explorações a planetas inóspitos, se é que houve alguma mais. Eram pioneiros, claro. Aqueles outros lá tinha ido à lua, não estes aqui. Estes tinham ido a um planeta inóspito, e era lá que estavam. Era muito importante salientar que o planeta era inóspito, embora fosse totalmente seguro andar por ali. De seres vivos, nenhum apareceu. É possível que houvesse vida inteligente lá, além das dos valentes astronautas, mas não se fizeram conhecer. Exploraram tudo, naquele imenso e inóspito planeta-quintal. Comeram frutas e, olhe só!, não faltava lá oxigênio e nem se deram conta da diferença da força gravitacional. Não andavam aos saltos, como ocorrera com os outros na lua, mas normalmente.
Os dois astronautas conversavam entre sí, decidiam em conjunto o que seria explorado, como seria a viagem de volta. As mangas, as jabuticabas, os figos e as goiabas daquele planeta inóspito eram deliciosas. Com aquelas roupas não dava para subir nos pés, mas os habitantes desconhecidos do planeta tinham deixado varas específicas para a colheita das frutas. Comeram de se fartar. Depois, tendo tudo explorado e todas as coisas checado, anotado, regulado os botões das roupas espaciais, decidiram retornar à terra de onde partiram.
Voltaram com menos burocracias. Foi só decidir que voltariam, entraram na nave-despensa, tiraram os trajes especiais, um shhhhhhhhh sinalizou o barulho dos motores e já estavam de volta. Que aventura! Depois, anos se passaram, veio a idade adulta dos astronautas e as viagens desse tipo foram perdidas e ficaram na memória, apenas.
Os astronautas crescem e se esquecem de como viajar quando querem e pra onde querem sem precisar de quase nada. Acho que a criatividade se dilui no corpo que cresce e evapora um outro tanto. As lembranças, no entanto, ficam para sempre. O planeta inóspito, toda a viagem, os trajes, a espaçonave, nada disso jamais foi ou será esquecido.
Já fui um astrunauta de sucesso!... Eu era um deles!... Depois cresci.

A sala da vaca

Na tua sala está a corja,
O embuste,
O disfarce,
Está o interesse travestido
Em amizade,
Cordialidade.
É tudo pura e plena falsidade.

Na tua sala está a nata,
Mas o leite é podre,
Passou do ponto,
Azedou... (nata?)
O interesse não é na vaca,
Mas só no sugar-lhe as tetas.
Tu és a vaca!

Pela posição que tens,
E é por mérito,
Assim penso,
Nem questiono, (quem sou?)
Te cercam os falsos
Que só querem teu vinho
Tua suposta influência.

Não és tu de todo inocente.
Procurastes o luxo,
Procurastes a fortuna,
Ostentas por que queres.
Se és vaca,
Dá as tetas e te cala,
Que gosta que a toquem.

No meio desta confusão
Suposta... pretensa,
Incerta e mal servida.
Tu e os teus se regozijam
Na bajulação discreta,
Na casa cheia de quase nada.
Repleta de falsidade de gente atenta.

Mas se a simplicidade é teu lema,
Ostenta tua bandeira.
Nem Don Quixote és,
Menos ainda Sancho.
A pança dos outros é que buscam
Tua mão fechada
Em meio aos teus conflitos de negação.

Abre as portas,
Chegaram os hipócritas
Misturados aos amigos.
Não sabes distinguir, não é?
No mundo da falsidade
Perde-se a capacidade da visão
De um ou dois olhos.

Vá, abra o vinho, hipócrita;
Sirva o queijo,
Dá o beijo
E recebe de volta o ósculo de Judas,
Carente de crenças que és,
Escravo da própria vida que tens.
Belo cabernet, boa safra, parabéns.

Foto:
Capa do CD Atom Heart Mother, do Pink Floyd.