domingo, 28 de fevereiro de 2010

O rodopio de Carmen

Carmen passeava tranqüila e distraidamente pelo Leblon. Tinha ido ao Rio para visitar a filha, que ali reside, e passar lá o Carnaval, com direito a assistir ao desfile das escolas de samba do grupo especial na Marquês de Sapucaí. Merecidas férias. Em meio à distração do caminhar, se vê diante de seu ídolo maior, Chico Buarque de Holanda, em carne e osso e olhos azuis e fantasias mil. Ali, tangível, quase tangível, parecia até que ele era de verdade, um ser humano comum, não deificado, alguém com quem poderia conversar, trocar umas idéias, um cara qualquer (Chico, um cara qualquer... Sei...) que tinha saído daquela magnífica coleção de obras da música popular brasileira e obras literárias. Com uma agilidade mental impar, Carmen ensaia um tropeço "instantâneo" e um conseqüente desmaio a serem usados na hora H, de forma a cair bem diante do Chico, bem nos braços do Chico. Não contava ela com o fato de que ele, especificamente naquela manhã bela e ensolarada, tinha saído de casa pensando num samba novo, fresquinho, que estava compondo, e estava num estado de torpor criativo bem característico dos músicos e dos poetas. Atenção toda voltada para o samba e para o atravessar ruas, não tropeçar em buracos, nada além. Era a manhã do samba novo. Ah, e Carmen é poeta, deveria saber que isto ocorre às mentes criativas, mas naquele momento não era nada além de uma tiete discreta... Semi-discreta, para sermos mais justos. Chico continuou seu caminhar tranqüilo e com a mente no novo samba, ainda por ser finalizado, gravado e lançado, em pleno processo criativo. Carmen esperou alcançar a distância que imaginou ser a certa, previamente calculada, escolheu, dentre os tropeços, o que mais se adequava com a obra do mestre Chico, rodopiou e, em meio ao rodopio, revirou os olhos e os fechou. Sentiu, quase de imediato, e com o corpo num ângulo 45 graus com o solo, as mãos fortes que a seguravam... As mãos de Chico. Não abriu os olhos de imediato, pois queria desfrutar mais daquele momento, daquelas mãos. "Você está bem?", perguntou a voz de Chico que, para sua surpresa, lhe soou um pouco diferente e menos nasalada da que ouvia nos discos e nas entrevistas. Sem expressar reação, a pergunta se repetiu: "Você está bem? Hei, você está bem? O que houve?". Mais uns instantes de charme e olhos fechados e então decidiu abri-los, não sem antes ensaiar a cara de espanto preguiçoso e a frase de conquista do ídolo. "Você está bem? Responda, por favor!" e então ela decidiu, finalmente, abrir os olhos e encarar o ídolo. "Cadê o Chico?!", exclamou Carmen. Um belo rapaz bronzeado, a segurava nos braços, e era até mais bonito que Chico Buarque, mas "Cadê o Chico?", insistiu ela. "Que Chico?", respondeu o rapaz, surpreso e solícito. Carmen se recuperou de desmaio ensaiado com uma rapidez impar. Agradeceu ao rapaz enquanto já olhava ao redor procurando o vulto desejado. "Você está bem?", perguntou o rapaz e ela "Sim, sim.", apressadamente. Ah, lá ia ele uma quadra adiante, levando pães e um jornal a pensar no novo samba. Pelo menos resta a Carmen saber ter estado tão perto do ídolo e mais, num momento de composição. Disso ela ficou sabendo agora. Acho até que Carmen é daquelas mulheres discretas que, quando estão bem no meio de um show do Chico, não conseguem segurar um sonoro "Liiiiindooooooo!!!". Quase todas fazem isso e as que não fazem querem fazer. Deve ser mais ou menos o efeito que a Michelle Pfeiffer tem sobre mim. Ô mulher linda, deus do céu! Bem, aguardem pelo samba novo! Ah, e Chico é, sim, um cavalheiro. Teria acolhido Carmen nos braços, assim como fez com Cecília, Carolina, Beatriz e tantas outras mulheres, e a teria ajudado a retomar prumo, firmar-se nas pernas trêmulas e teria sorrido um sorriso tímido e discreto, mas estava em processo criativo, como já sabemos. A falha, de Carmen, não do Chico, foi no giro, no rodopio e no fechar os olhos, um pouco distante do músico e escritor. Carmen se refez emocionalmente e sabe que voltará ao Leblon. Novas chances! Enquanto isto vai ensaiando outros desmaios e rodopios sincronizados, como a bailarina que Chico cantou com Edu já fez. Eu, por mim, vou pra Nova Iorque tentar me rodopiar diante da Michelle Pfeiffer. Ah, Michelle, ma belle... seria eu teu herói e meu cavalo falaria Inglês. Não serias noiva de cowboy, nem terias de disputar com outras três. Enfrenteria batalhões, alemães, Holywood e seus canhões, guardaria meu bodoque e ensaiaria um roque para as matinês.

Fotos: Chico Buarque por Ana Rojas / Michelle Pfeiffer http://www.rankopedia.com/CandidatePix/1351.gif
Este conto-homenagem múltipla encontra-se também publicado no site Vidráguas (www.vidraguas.com.br), onde sempre se lê muita coisa interessante de autores de toda parte.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Livro caído

Eu esbarrei no livro
Que caiu no chão, espatifou-se
As letras e palavras perdidas
Os personagens sem rumo
Livro sem prumo
Assim não pode, não
Palavra se trata é com carinho
A personagem dá-se caminho
Pobre daquele menininho
Corre perdido
Em meio a letras soltas
Mas, ah, que isso?
Livro não se espatifa
Peguei de volta
Dei um trato, um carinho
Voltei a ler
Que dar atenção é dar vida
Personagens no caminho
Dei-lhes alento
Tiveram rumo e fim

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Caminho

O caminho é longo
Longo é o caminho
Curta é a jornada
Não olhar pra traz
Tombos a menos
Passos a mais
Será?
Avanço
O caminho é longo
Não, não é
O caminho é curto
Ilusão de ótica
Comprido, não longo
Caminho bom
Caminho doído
Caminho, caminho
Caminho, só
Caminho cumprido
Não abro mão
De andar caminho

Carga

O que eu desdisse estava dito,
nada podia fazer.
Dito, desdito, é redito,
resignificado, refeito, replanejado.
Já não sabia o que dizer do dito,
então desdisse.
Já não sabia suportar tanta lenha
no lombo,
então cedi, caí, bati os joelhos nas pedras,
deixei a lenha de lado,
mas alguma ainda ficou:
aquela lenha que é nossa,
queiramos ou não.
Até o mais forte dos jumentos
tem sua cota de força,
seu limite de tenacidade,
sua minguada capacidade.
Jumento não é burro,
nem burro é.
Deixa a lenha aí,
deita a lenha no caminho,
alguém saberá o que fazer,
há de ter serventia,
depois passa a ventania,
que não agüentava mais.
Ou era a lenha ou era eu.

Se parado

Se parado
Ser parado
Separado estás
Corre, voa
Muda de lado
Pula o muro, canta
Chama à tensão
Atenção!
Encanta, sem silêncio
Se parado ficas
Morres
Desatas
Nó sem laços
Nós sem laço
Laços perdidos
Elos, ele, ela
Cordões soltos
Separados
Falta senso, falta
Sensação
Ata

Eu ia

Eu ia escrever,
Me esqueci.
Eu ia sair,
Desisti.
Eu ia amar,
Insisti.
Amei bastante,
Demolí.
Chorei, gritei,
Revivi.
Agora eu escrevo
Pressentí.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Contra rio, avesso

Algo está muito ao contrário
Muitos nadando contra-rio
Remando contra a correnteza
Contra a queda d'água
Em emaranhados de correntes
Enormes prisões, cárceres
Leis absurdas da realeza
Matando sonhos e realizações
Secando as águas da vida
Contra o rio... contrários a viver
Como se o simples fosse reles
Como se homens fossem nada
Mas nada é simples
Simples só é nadar
No rio, no lago, sorrindo riso banguelo
Sem realeza, mas com luz
Sinceridade, sem maldade
Isto faz de gente alvo fácil
Das ditas realezas, vossas altezas
Falsas, cheias de fraquezas
Mas inundadas de poder
Do mais imundo e superficial
Que corrompe, corrói, aniquila
O bom, o belo, o rio
Na contramão da vida pura
No oposto da correnteza
Contra a mão que pruduz a riqueza
O sustento e a leveza
Contra-rio, contrário riso
À gente, a mim, a vocês... alguns
Tudo torto, distorcido
Porque é o avesso do belo
E algo está muito
Algo muito ao contrário
Contra-rio, contra mim, contra nós
Mundo assim que se acaba

Vagabunda

Agora que o dia passou
Você me chega assim?
Agora que as horas passaram
Que quase todas se foram
Sem dar as caras desde há dias
Chegas-me assim sem aviso?
Agora queres que me dedique
A ti, aos teus caprichos
Aos teus encantos tão incertos
Teus recôndidos ideais
Como me chegas assim?
De chofre, sem aviso
Quem pensas que é?
Pior que me rendo
Não aprendo, não resisto
Com você eu sempre insisto
Maldita!
Só a hora, não tu
Bendita sois, amada
Querida inspiração.

Escrito em:
21/02/2010 (21:29h)
Foto: http://ammedeiros.wordpress.com/2006/09/09/silhueta

Quanto?

Quanto de mim há em cada pedaço do que sou
E quanto de mim há em cada pedaço do que nego ser?
Quanto de mim sobrevive ao idealismo
E quanto de mim morre diante do desmascaramento?
Quanto de mim resta, ao final de tudo?
Quanto,
quem,
como,
onde,
por que
e até quando?

Obs.:
Este poema encontra-se publicado também no site/blog Bicho de Sete Cabeças, de Eugênia Fraietta, na aba fixa direita (http://www.bichodesetecabecas-ge.blogspot.com/). Uma honra estar por lá!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Falsa tempestade

Neste exato momento
começa um forte vento
enorme
ele tapa o céu
anuncia a tempestade
me atrai
seu movimento
me encanta
com ele percebo a natureza em dança
feito uma cachoeira em cascata
agora,
voam meus papéis
mesmo em algaravia
mas a mim, ele segue delicado
e o toldo da varanda
com pretensões de asa delta
muda meu plano
olho a luz piscar
salvo um e-mail
e enquanto uma leve brisa
anuncia o falso alarme
fecho o pano
e retorno à luz
que encaminhará minhas palavras
de cá pra lá
a tomar caipirinha
Obs.:
Este poema foi feito a "quatro mãos", à distância, entre mim e Carmen Sílvia Presotto (
www.vidraguas.com.br), que pegou uma frase de um e-mail meu e, com sensibilidade, encontrou um poema, fragmentou-a e ajustou (em soma e subtração) algumas palavras. Obrigado, Carmen!
Este poema foi também publicado no site de Portugal, A Casa Que Caminha (www.acasaquecaminha.blogspot.com), conforme anunciado na coluna Notícias Quentinhas (na aba da direita). Obrigado ao blog A Casa Que Caminha e obrigado, mais uma vez, a Carmen, minha parceira neste poema e pelas portas abertas.