sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Em pedaços

Uma vez fiz-me em pedaços
Sentei e me pus a catar
Fui brincar de quebra cabeças
Montei bela figura
Mas faltavam algumas peças
E pouca gente notava

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Em estado

Em estado de espanto
Espanco meu espírito em susto
Agarro-me em teus seios
E sugo o leite de teu amor e desejo

Em estado de pranto
Encanto meu espírito de pureza bela
Olhas-me com tanta destreza
E te beijo como quem se alimenta: és ela

E tu, em estado de sedenta
Tocas-me com sutileza precisa
Agarras-te em minh’alma
Damos mãos, seguimos com calma

E em estado de glória
Colamos anseios e vontades duas
Catalisamos tempo perdido
E vivemos dois num como mil anos em um

domingo, 2 de janeiro de 2011

Quimera real

A tu que chegas, boas vindas, ainda que não te conheça. Prefiro pensar que és do bem e para o bem e que carregas o bem, do que duvidar de tua chegada. Chegas sem surpresa, é bem verdade, até mesmo esperado, mas total desconhecido. Chegas de vestimenta nova, recepção à altura, mas de novo, talvez, não tenhas tanto. Pode ser que sejas tão somente uma reedição mascarada de um já conhecido outro ou muitos outros. O “quem és” dependerá também do que eu fizer contigo. És em parte tu mesmo e em parte o que eu quiser fazer de ti. Incógnito, amigo ou inimigo? Não sei, mas vi muitos a te festejarem a chegada. Eu, de minha parte, fiquei quieto e pensativo. Desconheço-te e conheço-te, nesta mesma ambivalência que te forma e me forma. Haverá uma relação de amor e ódio, de coragem e medo, de boas e más surpresas, de idas e vindas, de ganhos e perdas. É... na verdade és o mesmo de antes, és o mesmo de sempre e, ao mesmo tempo, carregas algo de novo. Ainda assim, com toda dicotomia, dou-te boas vindas, até por não ter outra opção que não caia em uma inutilidade infantil. Entra, a casa é tua. Farei minha parte. Peço-te apenas que faça a tua. Vá, não te finjas de tímido, pois adoras a glória falsa que te dão por toda parte como se fosses real enquanto és quimera... És quimera real.

          Escrito às 04:00h do dia 01/01/2011

Espaço esparso

Eu chego ao meu espaço
E me descubro esparso
Naquele espaço que penso meu
Naquele local que penso eu
Procuro-me, não me encontro
Grito por meu nome
O espaço se agiganta ou diminui
Depende de mim
Agora é diminuto
De minuto em minuto, menor
Fico olhando e andando
Num vai e vem de leão em jaula
Pior saber quem fez as grades
Fui eu, só eu, ninguém mais
Eu checo o meu espaço
E descubro, esparso, que não é meu
Nem tampouco sei
Quem é realmente esse eu

domingo, 19 de dezembro de 2010

Finestre

Os olhos são as janelas da alma... Mas há olhos em que é melhor não olhar, não arriscar um trauma ao ver paisagem tão podre, tão pobre; hecatombes onde deveria haver seres humanos, vidas.

Os olhos são as janelas da alma... mas há gente sem alma. Normalmente são cegos, normalmente estes nem fitam nos olhos ao conversar. Desviam o olhar, baixam o rosto, são paranoicos... e atacam na surdina.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O homem ferido

O homem ferido anda,
anda devagar,
manca,
cambaleia,
às vezes chora.

O homem ferido tem
suas feridas expostas
sem a certeza
de que irão cicatrizar.

E tem também
as cicatrizes velhas,
altas e feias,
limitadoras de movimento.

O homem ferido caminha,
mas num ritmo
diferente e contido,
meio que aprisionado
no medo.

Medo de que
um movimento mais rápido
ou alguma ousadia
lhe tragam mais dor.

O homem ferido
caminha querendo se sentar...
Sentar-se e esperar
que a dor passe,
que as dores passem,
as do corpo e da alma.

Mas o homem não está ferido,
Não!, ele é ferido,
é ferida,
é dor,
é clamor.

O homem ferido
fita nos olhos
diretamente
como quem clama,
como quem chama.

O homem ferido
olha com a maturidade
do olhar de uma criança
recém descoberta
em meio a escombros.


          Pintura:
          O Homem Ferido, de Courbet, 1844

sábado, 4 de dezembro de 2010

Passo

Passa o tempo,
passa vida,
passa a hora,
passa quatro,
passam montes,
passam pontes,
passa o passo.

          É passo seguinte.

Passa passado,
passa presente,
passa futuro,
passa-se roupa,
enruga-se a vida;
passar o presente?,
passar que se tente.

          Avante passar.

Passa noite,
passam amores,
passam chances,
aperta o passo,
é passo a mais,
passa tropeço,
passo, levanto.

          É passo, é seguir.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Um trago, um traz...

Traga-me um pouco da sana insanidade
Da responsável irresponsabilidade
Da tortuosidade reta
Da travessura de um trago, um gole... e curvas
Nada certinho demais, senão enjoa

Traga-me o trago que trago e o seu trazer
Uma pitada de cachimbo da paz
Um gole de uma bebida a degustar
Um cheiro bom, um chamego, um aconchego
E pode ter abundância em liberdade

Traga-me a fala solta e espontânea
Sinal de vida, vontade, compreensão, novidade
Traga-me pimenta saborosa, suor
Ponhamos tudo no prato e nos deliciemos com o sabor
Seja assim bom o tempo que for

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

À porta

Uma senhora de aparência estranha e desagradável chegou à frente da casa e ali se instalou como se fosse espaço seu, parecia estar do lado de fora, depois pareceu crescer e envolver a quadra. Demorou um tempo até que me desse conta de que foi minha percepção que cresceu, a visitante era gigante, sempre o fora, e não era uma senhora, nem tampouco visitante... Estranho ser. Grande o suficiente para englobar tudo e o que for além. Insana, maldita... Loucura!

Loucura, então, beteu à porta, mas não atendi. Pobre inocência a minha! Loucura não precisa de portas abertas para entrar ou sair ou dominar o que for: as mentes, as corporações, o modus vivendi reinante, a hipocrisia dominante. Ela não invade, é convidada. Passa pelas frestas, atravessa paredes e toma formas mil, formas vis.

Não é aquela loucura vista nos manicômios, tão pouco e mal compreendida, via de regra inofensiva e estereotipada, é a Loucura da vida, do mundo, das sensações das ditas pessoas normais. É uma núvem, uma névoa, um tufão, e em constante mudança. O mundo, assim, vai-se cegando. Delírio! Relações frias, esfriamento global, sufocamento, vendas nos olhos à venda, tudo à venda.

sábado, 27 de novembro de 2010

A fazer com uivos

E quando os fantasmas pareciam se aquietar
Arrombam-me as portas
Espatifam-me a janela
O vento uiva como se ser vivo

Acuo-me de pernas retesadas junto à cabeceira
A cama fica grande demais
O quarto se encolhe
E o uivo é de um lobo feroz

Pensei-me herói, pensei-me livre, pensei, pesei
Grades se apresentaram
Voo se fez difícil
Voz se fez trêmula e falha

Deixei os fantasmas soltos, os uivos altos
Chutei o ar vazio
Cantei uma música alta
Levantei-me e andei

São Paulo - 23:52h